segunda-feira, 4 de março de 2013

ANDY WARHOL NA ENFERMARIA DO DR. HOUSE >> André Ferrer

Que tal algumas perguntas para começar? Vamos lá! Quem fez a declaração abaixo? Por que, onde e quando ela foi feita?

“No futuro, todos terão quinze minutos de fama.”

Frases arrancadas do contexto podem ser ótimas para a maioria das pessoas, mas irritam quem é capaz de detectar a defasagem entre o sentido original e o pretendido pelos incautos. Hoje em dia, em plena febre das redes sociais, as aberrações alcançam níveis insuportáveis.

Inúmeras vezes, a citação apresentada é usada para confirmar uma espécie de vaticínio. Por ignorância ou má-fé, os interessados na balbúrdia que cerca a gênese de celebridades fugazes atribuem qualidades de apologista ao emissor da referida declaração enquanto, na verdade, ele criticava a uniformização cada vez mais intensa do pensamento cultural e artístico. O criador da frase acima foi um dos importantes críticos da produção cultural em série.

Ainda mais irritante é o conceito distorcido por trás desse tiroteio de frases prontas: ironia é sinal de inteligência e conhecimento. A inteligência e o conhecimento, de fato, originam “tiradas” irônicas. O contrário — sobretudo quando se usa a ironia alheia — é uma farsa.

A todo instante, encontro imitadores do Dr. House por exemplo. Cada vez mais, infelizmente, eles ganham coragem e saem do mundo virtual para torrar paciências no mundo real. Querem ter, a qualquer custo, a personalidade do médico da série televisiva, porém só conseguem reproduzir uma arrogância vazia, uma falta de educação pura e simples. Ora! Por que não estudam? Por que não crescem primeiro?! Ser arrogante não torna ninguém mais inteligente — só antipático e odiado. Então, obedeçam a ordem natural das coisas: primeiro uma pessoa se desenvolve e se esforça; depois — e só depois de muita ralação —, é que conquista a autoridade da crítica. A graça não está no comportamento chulo, mas numa personalidade ácida cuja ironia é justificada, isto é, o interessante do Dr. House é que ele é, além de insuportável, alguém culto e tarimbado. Não basta sair agredindo as pessoas. Tem que ter conhecimento. Daí, sim, uma pitada de ironia fica até interessante.

No famigerado Facebook, a reprodução de ideias em muito suplanta a produção, reafirmando as constatações de críticos da Indústria Cultural como o filósofo alemão Theodor Adorno e o artista plástico norte-americano Andy Warhol. Este último, aliás, emissor do comentário acima proposto, é um dos mais citados dentro e fora da rede quando vêm à baila os assuntos meios de comunicação e notoriedade. No Facebook, os 15 minutos declarados por Warhol acontecem num ritmo que ultrapassa os limites da banalização. As pessoas, de fato, experimentam a sensação da fama dentro de círculos teoricamente infinitos, mas tudo acontece de forma tão rápida e simultânea! Minutos viram segundos. Cada usuário, no final das contas, acaba tendo, não há dúvida, os seus 15 segundos de fama garantidos. Num piscar de olhos, um sem-número de famosos é jogado nas profundezas do anonimato. É o preço que se paga por reproduzir ideias alheias. Ora, isso nunca levou, não leva e jamais levará alguém à originalidade, a única força capaz de consagrar alguém como criador.

Naquela e nas outras redes sociais, há pouca originalidade, muito embora a personalização seja intensa. Não seria de se esperar o contrário, então, uma vez que quanto mais pessoais, as ideias, mais perto da originalidade estariam?!

A genialidade artística de Warhol sempre orbitou essa dúvida em relação aos caminhos tomados pela cultura e pelas artes. Seus quadros eram produzidos em série. Toda a sua obra valorizava o discurso irônico sobre a sociedade de consumo desenvolvida no pós-guerra. Desta forma, nenhuma interpretação séria da arte de Warhol pode deixar de fora o teor crítico sobre a Indústria Cultural e a padronização do pensamento. Colocar, então, Warhol, como apologista ou profeta das condições atuais, está fora de cogitação. Ele sempre denunciou este lixo que agora nos cerca.


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4 comentários:

Evaristo disse...

André, você resgatou a intenção de Warhol, cuja ironia, no mais das vezes, passa despercebida, e sua obra é considerada uma apologia da produção em série e da despersonalização. Nada mais falso. A colocação a respeito dos "15 segundos de fama", reduzidos dos 15 minutos ironizados por Warhol, foi feita por mim anos atrás, quando estava na faculdade. Na ocasião, ninguém entendeu, e me corrigia: "São 15 minutos, e não 15 segundos!". Quanto mais veloz o meio, menos pessoas entendem ironias e se apegam a fatalidades. Identifiquei a tendência que se tornaria regra nas redes sociais, mas não escrevi nada a respeito. Mandou bem!

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Exato Evaristo! O pupilo de Warhol, Basquiat, enquadra-se muito mais na figura de apologista. Tenha uma boa semana Evaristo! Grato pela apreciação.

albir disse...

Tem razão, André. As pessoas abrem mão do respeito e da admiração entre seus pares, com uma acidez injustificável, por uma efêmera notoriedade virtual.

Zoraya disse...

Warhol ainda teve sorte, suas palavras foram desvirtuadas apenas no sentido; se vivo fosse, certamente lhe atribuiriam frases outras, feitas por pessoas de intelecto e caráter inferior, e divulgariam nas redes sociais. Como fazem com Veríssimo, Jabor, Zuenir Ventura... o tempora, o mores