sexta-feira, 1 de março de 2013

POMBOS >> Zoraya Cesar

Todo dia, fizesse chuva ou sol, calor senegalês ou frio ártico, lá estava ela, dando milho aos pombos, com sua mão nervosa e cheia de veias azuladas. No início os pombos chegavam timidamente. Agora, com a sem-vergonhice típica dos tempos modernos, mal ela assomava à portaria, eles revoavam, um bando arrulhante e barulhento.

E sujo. E transmissor de doenças. E emporcalhador de praças. Malditos.

Da janela, ele olhava para a velha, com ódio, quase babando. Era uma enviada do demo, dizia para si mesmo, que veio à Terra com a específica missão de contaminar a areia da praça e matar a todos de criptcocoses fatais e outras doenças nojentas.

Ele sempre detestara pombos. Jamais fizera mal a qualquer animal - na verdade, era vegetariano, incapaz de matar uma barata que fosse (sua ex-mulher o acusava de covarde, mas a ex-mulher não faz parte dessa história, deixemos isso de lado). Mas detestava pombos. Era defensor veemente da extinção dessas pragas urbanas, que deterioravam monumentos históricos, eram vetores de doenças severas e, se deixasse, nosso amigo listaria ao menos 30 boas e incontestáveis razões que justificavam o desaparecimento dessas aves. 

A voz da velha gritando “pombinhos do Senhor, pombinhos do Senhor, aves Santas de Deus, venham, tchu, tchu, tchu...”, enquanto jogava o milho, o ruflar de asas, o arrulho dos pombos, tudo dava-lhe nos nervos de tal forma, que ele colocou vidros à prova de som nas janelas da sala. Ele não levava mais os netos na pracinha, imunda e contaminada por restos de milho e pelas penas e dejetos dos pombos, mas fazia-lhe mal ver as outras crianças expostas ao perigo.

E, ainda por cima, por ironia do Destino - este senhor debochado -, eles moravam no mesmo prédio. E acontecia de, muitas vezes, pegarem juntos o elevador. Numa ocasião, ele tentou conversar sobre a incompatibilidade entre pombos e praças, mas a velha, numa voz gasguita e desagradável, entoou uma ode à santidade das aves que representavam o Espírito Santo, que trouxeram o ramo de oliveira a Noé, e mais, e mais... Ele saiu tonto do elevador.

Inútil, concluiu, apresentar qualquer argumento coerente. Urgia uma atitude mais enérgica.

Primeiro, fez inúmeras denúncias à prefeitura, todas infrutíferas (adjetivo redundante, bem sei). Depois, meio desesperado, tentou comprar um gavião para caçar os pombos, mas o criador reagiu, indignado: jamais permitiria que suas queridas aves, criadas a pão-de-ló e alimentos silvestres, comessem coisa tão imunda e asquerosa.

Então, um dia, depois que um pombo sem-noção fez de banheiro a sua camisa nova e seus cabelos ralos, ele perdeu as estribeiras.

Urgia uma atitude definitiva.

E se a necessidade é a mãe da criatividade, também a ocasião faz o ladrão, assim como quem espera sempre alcança. E chega de ditados, vamos à ação, que agora os acontecimentos se seguem velozmente.

Se ele não faria mal, diretamente, aos pombos, só havia uma maneira: eliminar a mão que os alimentava. Ela, a vizinha, a velha, a encarnação do mal. A culpada pela infestação de pombos que tornara a pracinha um antro de sujeira, insalubre para quaisquer outros seres.

Ele comprou um formicida dos mais poderosos. E também um pacote de biscoitos de chocolate, que ele sabia serem os preferidos dela. Borrifou-os com o formicida e, ao encontrá-la no elevador, ofereceu-os, gentilmente. Ela pegou alguns na mão e levou-os, para lanchar após a sua missão diária de "alimentar as avezinhas do Senhor”.

Consciencioso, ficou vigiando atrás de uma árvore para que ninguém corresse riscos. Deus o livrasse de matar algum inocente!

O plano seguiu exatamente conforme arquitetara. Ela comeu os biscoitos e foi para casa.

E morreu, obviamente.

A polícia, chamada pelo porteiro, que estranhara a ausência da moradora no dia seguinte, concluiu que ela morrera de ataque; não havendo ninguém para socorrê-la a tempo, engasgou-se com seus próprios fluidos. E como havia muitos crimes urgentes a resolver, e a polícia tinha mais o que fazer, o caso foi arquivado.

A Justiça dos homens foi arquivada, mas a Divina continuou em aberto.

No mesmo prédio, assim como a velha senhora, um outro vizinho também tinha uma rotina diária: a de vê-la comer biscoitos após alimentar as pragas (ele também detestava pombos). A presença da velha, tão infalível quanto o dia que amanhece, dava-lhe um certo conforto, uma sensação de perenidade.

À noite, a mente relaxada pela leitura de um romance açucarado, ele teve um insight do que o incomodara desde o momento em que soubera da morte da velha senhora.

Os pombos.

Ele lembrou que, no dia em que ela morrera, alguns pombos andavam tropegamente e caíam, após comerem as migalhas do lanche da vizinha. E, se a memória não lhe falhava (e a memória não lhe falhava jamais), alguns dos pombos sequer levantaram.

Havia algo de estranho naquela história, e ele, Felipe Espada, mais de 30 anos como investigador de polícia, iria descobrir o que era.


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11 comentários:

Anônimo disse...

Ficaria perfeito ao ser filmado em um seriado do tipo the twilight zone!

Adriana disse...

Show, gostei muito! Coitado,pensou q fosse se livrar tão facilmente dos inconvenientes. Ahhh

aretuza disse...

Quero continuação!!!

albir disse...

Zoraya,
às vezes você maltrata o seu personagem. Em compensação trata muito bem o texto e o leitor.

Erica disse...

Zo,

mais uma vez a mistura de suspense e humor que você vem imprimindo em seus contos foi felicíssima. Ri muito e, como já te contei, me fez lembrar de uma história que vivenciei. Fique à vontade para fazer a continuação desta com o episódio que falei :)

Carlos H. disse...

Zoraya,
Esses finais sempre me surpreendem. Aquele gostinho de 'romance' policial, hm que delícia.
Essa crônica me lembrou uma de minhas preferidas,Planos Macabros.
Aguardo plenamente, no ócio de minha angústia, pelo momento que, para o deleite de todos, páginas e páginas refertas de suas personagens enigmáticas e psicóticas, desde um mísero pombo ou, menor, um ávido cupinzinho ao terapeutico leão, como por outras personagens, que seja, de uma porção de vizinhos, secretárias, empregadas, psicólogos, fanáticos, motoristas de ônibus, pegadores, caçadores, madames, namorados, velhinhos, viajantes, padres, detetives... (são intermináveis, mesmo. Uma ousadia tentar decifrar um mundo, não é?!), enfim, sejam impressas.
Resumindo, queremos sentir o cheiro da tinta solta pelas suas palavras vinda das páginas de um livro com seu nome na capa.
(Desconsidere minha grosseria pelo longo período da frase, que sinceramente demonstra todo o fluxo de boas impressões que você já me causou, apesar de expresso brevemente. Considere como um simples elogio ou um breve surto.)
Excelente trabalho. (:

Cecilia Radetic disse...

Zo, você está se superando. Tenho uma amiga que teve uma vizinha assim, só que jogava o milho no chão da própria sala, o que obrigou aos demais moradores do prédio a ficar com as janelas fechadas 24 hs. Ela se mudou por não aguentar. Cheguei a visualizar a cronica encenada - daria um ótimo caso especial

Anônimo disse...

amiga,

felipe espada, por acaso, seria o mesmo vizinho policial daquela senhorinha que matou a própria mãe?

e será que ele mora naquele prédio do porteirinho seduzido que explodiu a síndica?

que vizinhança é essa, minha querida, onde só acontece babado forte?

moram todos no melhor lugar deste mundo, na sua intrigante e mágica imaginação que nos brinda carinhosamente com momentos brilhantes de entretenimento inteligente!

concordo plenamente que tudo isso merece um livro!

beijos carinhosos e ávidos pela próxima vítima, kkkk...

Ana

Zoraya disse...

Anônimo: uau, Twilight Zone? Aqueles roteiristas eram o máximo! Não mereço tanto, mas vou me esforçar pra chegar lá, obrigada pela comparação. Estou inflada que nem balão.
Adriana: pior é que tenho certeza que tem um bocado de gente doida pra dar cabo dos inconvenientes. Agora já sabem q dessa maneira nao dá certo...
Aretuza: vou ver o que aconteceu com os personagens e conto numa próxima vez. Investigações são coisas demoradas.
Albir: e você, o Rei do Agri-doce, que sempre tem um comentário gentil pra nos brindar? Ninguém trata melhor o leitor que você, Albir.
Erica: fico feliz. Fazer rir é uma das metas que quero alcançar como escritora.
Carlos:nem sei como responder à gentileza de seus comentários. E mais, adorei o "cheiro de tinta solta...". Você tocou no meu ponto fraco. Vou valorizar seu comentário começando a pensar seriamente sobre esse assunto.
Cecília: puxa, se eu soubesse da história, eu teria aproveitado. Mas, hummm, acho q vou aproveitar sim!
Ana, você acertou! É a mesma vizinhança, e o mesmo Felipe Espada. Mas se o pessoal continuar se matando assim só vai sobrar um prédio fantasma, hahaha.
Beijos a todos

silvia tibo disse...

Que delícia!!!
Tem parte II????
Eu quero!!!

:)

Clube de Contos disse...

Este conto tem uma leitura deliciosa, divertida, e ainda por cima cheia de suspense. Zoraya consegue cativar o leitor com sua forma despojada de escrita, e nos puxa até o final pela curiosidade inusitada de suas ideias.