quarta-feira, 20 de março de 2013

ENTÃO, JÁ FOI >> Carla Dias >>


Morte é uma consequência da vida, que é complicada de se aceitar sem dramas, ainda que sejam dos interiores, dos escondidinhos. Penso assim porque acredito que a morte faz mais sentido para os que ficam. Porque apesar de amarmos a pessoa, de ser fato que sentiremos falta dela, que vai ser muito difícil lidar com a ausência dela, depois da notícia do seu falecimento, passamos a pensar em nós mesmos. Prova disso é que, um dos primeiros pensamentos de quem recebe a notícia do falecimento dos seus afetos costuma ser o que será de mim sem essa pessoa?

De alguns anos para cá, tem sido mais complicado receber a notícia da passagem de alguns. Isso porque, quando crianças, adolescentes até, ao sabermos da morte de alguém, lidávamos com isso sem detalhes. Era como se a pessoa simplesmente parasse de nos visitar, ou tivesse se mudado de casa, deixando uma saudade a ser desfiada durante os encontros familiares e os muitos álbuns de fotografia.

Não estou diminuindo a importância das pessoas, mas sim assumindo que a morte alheia é um estopim para refletirmos sobre a nossa própria vida.

Quando adultos, a morte vem com as experiências de quem se foi misturadas às nossas. Não é mais a sensação de sala vazia, de alguém não pode mais nos visitar. A partir daí, já sabemos onde e por que a pessoa nos deixou. Viu só? Uma das formas de falarmos sobre alguém que morreu é “ele/ela nos deixou”.

Minha mãe tem uma forma muito peculiar de dar a notícia sobre a morte de alguém. Invejo a forma como ela lida com a morte, porque me parece muito mais tranquila, com a aceitação real de que a morte é o que tem de ser, independente do como aconteceu. Do ano passado para cá, foram algumas vezes que ela me ligou e disse: Sabe fulano? Então, já foi.

Já recebi a notícia sobre a morte de algumas pessoas e de diversas maneiras. Quase sempre, esse momento veio carregado de uma comoção que, em alguns casos, nem mesmo eu compreendia. Eu que fico prestando muita atenção, que me esforço para entender, mas que não consigo compreender como reagem, diante da morte de alguém, aqueles que nunca foram respeitosos ou amáveis com essa pessoa. É como se a morte permitisse uma consideração que, em vida, era inviável.

Até me voltar ao que acredito: a morte do outro faz com que reflitamos sobre a nossa vida. A empatia chega tardiamente.

Para mim, a forma como minha mãe dá a notícia é das mais justas. Quando escuto o já foi, acabo sempre imaginando a pessoa indo mesmo para um lugar mais aprazível, mala, cuia e tranquilidade. Automaticamente, acabamos falando sobre ela, sobre coisas bacanas que ela fez, mas sem esquecermos que, como qualquer ser humano, ela também tinha lá seus defeitos, seu acúmulo de escolhas que deram em consequências ruins. Morte não apaga biografia. Pensamos na pessoa como ser humano que é, deixando para mais tarde o mergulho em nossos insights sobre a morte e a fragilidade da nossa própria existência.

No tarô, a carta A Morte nos dá outra dimensão dessa passagem. Ao contrário do que parece aos que não conhecem o oráculo e os significados das cartas, imagina-se a morte como a que presenciamos cotidianamente, como o fim. Muitos sábios, valendo-se ou não de oráculos, concordam que a morte mantém significados muito mais profundos. Que a morte não é o fim, mas uma continuação. No caso da carta de tarô, ela significa renascimento, ainda que mediante um fim necessário.

De qualquer forma, escolho pensar a morte assim, como essa ponte pela qual aqueles que já foram passam, reunindo-se logo adiante para um cafezinho. Gosto de pensá-la poeticamente, ainda que as circunstâncias da partida não tenham sido das mais compatíveis com a tranquilidade que todos desejamos neste momento. E que isso inspire a pensar sobre mim, sobre o que precisa morrer para me permitir renascer em paz com alguns aspectos da minha própria existência.

O dia em que alguém disser Sabe a Carla? Então, já foi., espero que seja um dia em que alguém me imagine carregando malas cheias de livros, discos e filmes, e todos os desenhos-rabiscos que meus sobrinhos desenharam para mim quando crianças, e as cartas que guardei com muito carinho, as fotografias dos que amei nessa vida.

E que, por favor, lá tenha café.

carladias.com

Partilhar

3 comentários:

silvia tibo disse...

Linda forma de encarar a morte, Carla... como uma ponte que nos conduz ao reencontro de pessoas queridas... e que incentiva os que ficam a repensarem suas atitudes.
Beijo!

albir disse...

Até a morte fica palatável na poesia de Carla. Beijo.

Carla Dias disse...

Silvia... A morte, como parte da vida, aprecia as pontes. Beijos.

Albir... Obrigada. E beijo.