terça-feira, 12 de março de 2013

CURIOSAS RELAÇÕES >> Clara Braga


Acho engraçada essa relação que a gente tem com a morte. A gente não quer que ninguém próximo da gente morra, afinal, é sofrimento demais, só a ideia de não poder encontrar ou falar mais com certas pessoas já nos corta o coração. Porém, acho engraçado reparar como a gente sempre busca uma relação nossa com a morte de pessoas distantes, mas que são conhecidas. Não quero desmerecer o trabalho do Chorão, mas tenho certeza que ele nunca teve tantos fãs como agora que morreu.

Outra mania que temos é a de, depois que a pessoa morre, definir qualitativamente como foi a passagem dela por aqui. Ou a pessoa foi horrível ou a pessoa foi maravilhosa, não existe o meio termo onde a gente lembra que as pessoas, incluindo as que morreram, são serem humanos que fizeram muita coisa certa em sua passagem pela terra, mas que também erraram um bocado. O Chorão, por exemplo, em questão de minutos virou um grande poeta que vai deixar saudades e que vai fazer muita falta para o rock nacional, que já estava sofrendo, mas após a perda dele está pior ainda.

Longe de mim querer desmerecer o trabalho dele, ele realmente escreveu letras muito bonitas, incluindo uma que eu adoro chamada Lugar ao Sol, e músicas muito gostosas de ouvir e curtir. Quando era adolescente gostava de ir aos shows e comprava os CD´s do Charlie Brown. Mas é exatamente por ter ido a alguns shows que eu sei reconhecer que por conta das drogas, ou até por uma questão de personalidade, ele já estava se tornando uma pessoa desrespeitosa, sem limites e que não agradava aqueles que estavam ao seu lado, não é pra menos que sua própria banda chegou a se separar.

Não me esqueço de um show que fui do Charlie Brown aqui em Brasília que o público cantava junto em coro todas as músicas. Foi de fato muito bonito, e exatamente por ter gostado o Chorão decidiu jogar um microfone para a plateia cantar com ele. Claro que o microfone não voltou para o palco quando ele pediu, quem pegou deve ter até hoje como uma relíquia e, do jeito que as pessoas são aproveitadoras, daqui a pouco vai estar sendo vendido por muito dinheiro por ai. Bom, mas isso não vem ao caso, a questão é que Chorão se indignou com o fato de não ter o microfone de volta e passou os próximos 20 minutos de seu show, que já era reduzido por fazer parte de um festival de música, xingando a pessoa dos nomes mais horrorosos que se pode pensar e mandando ela enviar o microfone roubado bem naquele lugar, de forma nada educada. Sério, isso é atitude de um grande poeta que deixou sua grande marca e que vai deixar muitas saudades por ter sido um herói para o rock nacional? Desculpa, como disse antes, admirava parte de seu trabalho, mas dizer que ele era uma pessoa maravilhosa que só fazia o bem já vai muito além do que eu posso concordar, e acredito que Marcelo Camelo vai estar de acordo comigo!

Chorão morreu. Uma perda para música, de fato, mas não vamos "glorificar" a pessoa dele. Como bem disse a esposa dele em uma entrevista para o fantástico, vamos usar a morte dele como uma forma de divulgar para os adolescentes que o admiravam que as drogas não levam ninguém a lugar nenhum, que não é a solução para nenhum problema, que, momentaneamente, pode parecer que você está mais feliz, mas o mal estar que você causa depois para si mesmo e para todos ao seu redor é irreparável. Se o Chorão deixou alguma mensagem para todos os seus seguidores essa mensagem foi: NÃO USEM DROGAS, JAMAIS!!


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2 comentários:

silvia tibo disse...

Clara,

Você traduziu em palavras tudo o que eu penso a respeito do assunto...

É engraçado como os mortos tendem a ser vangloriados, independentemente daquilo que fizeram em vida...

Adorei o texto!Vou compartilhar!

Beijos

Zoraya disse...

Pois é, o pior é que esses caras morrem, morrem e o pessoal que gostava deles transam mais drogas ainda, parece um efeito rebote. Mas sempre há esperança.