sábado, 23 de março de 2013

EXPERIÊNCIA DE LEITURA [Ana González]

Eu gostava de ir á biblioteca da escola na época em que eu frequentava o segundo grau. As lombadas dos livros me diziam pouco de tudo o que eles guardavam. Eu ia, então, à descoberta. Era uma enormidade de dados, uma quantidade imensurável que estaria para sempre inalcançável à minha curiosidade.

Assim, visitando as estantes de uma sala grande e quadrada com algumas janelas também  grandes – e isso é o máximo que minha memória consegue resgatar - descobri as biografias. 

Elas me mostraram aspectos insuspeitados de personagens conhecidas. Foi assim que Maria Antonieta e Lincoln me acompanharam por muito tempo desde que eu os conheci tão de perto. Tinham ganhado estatura de pessoas. Não eram mais referências históricas. O fato de ser pelos olhos de outra pessoa não fazia diferença para mim. Sim, era  uma interpretação pessoal, mas esse aspecto não tinha importância. Era um detalhe que não cabia no repertório de minhas preocupações. E eu literalmente me perdi em meio a essas vidas e suas particularidades.

Só tive ideia clara do impacto dessa experiência de leitura quando visitei o Lincoln Memorial em Washington muito tempo depois. À frente da estátua de quase seis metros me senti menor ainda do que já sou realmente. Estarei exagerando? Talvez não. Eu era uma pessoa apaixonada por ele desde aquela leitura.  Então não me constrange dizer que chorei. Eram lágrimas sem dor. Era alegria de um reencontro, me deparando com essa pessoa que me servira de reflexão, admiração e respeito por muito tempo.

O filme de Steve Spielberg agitou a memória já apaziguada. A saudade foi vivida em tom maior, pela insatisfação que eu carrego ante a banalidade do que está á nossa volta seja nas personagens da política ou outros tipos de celebridades que servem ao imaginário coletivo. A partir desse contexto, o reencontro com a  experiência adolescente foi mais significativa.

Estando eu a salvo de ideologias que pudessem me impedir de apreciar o filme ou a figura do estadista e seu trabalho realizado, refiz o caminho daquela época em que o conheci, quando me embrenhei na sua luta pela abolição da escravatura. Hoje identifico aspectos diferentes em sua vida como as dificuldades em relação aos meandros da política. Em mais duas de suas biografias, me afundei de novo em sua vida. Descobri seu lado pisciano, melancólico e poético, o contato cético e saturnino com a realidade e com as questões materiais.

Esses dados acrescentados mudaram um pouco a impressão da primeira leitura. Hoje o personagem é menos guerreiro, embora ainda guarde tons heroicos. Eu confesso que ainda preciso de heróis. Sem seu apoio, sustentar a realidade fica difícil. Foi assim, que tenho constatado que a figura de Lincoln guardou sua magia desde aquela leitura inaugural.  Sou-lhe grata por manter esse raio de esperança dentro de mim, por ainda me emocionar. Gratidão também à biblioteca com todos os segredos de cada um de seus livros, ali, a espera de alguém que os mobilize. Ela me alimentou fornecendo-me inspiração. Ainda hoje.

Experiências de leitura são assim, uma maravilha. Elas podem ligar épocas, sentimentos. São como parcerias que marcam momentos inestimáveis, que podem ser reacendidos sem aviso prévio a qualquer momento. São presenças vivas para a graça e manutenção da vida. 


Partilhar

6 comentários:

silvia tibo disse...

Lindo texto, Ana!
A leitura tem mesmo esse poder de nos transportar para lugares e épocas diferentes, né?
Não há como se sentir só com um bom livro do lado...
Beijo!

Heloisa Reis disse...

Ana, confesso que também sinto falta dos heróis... aliás nossa sociedade contemporânea está carente deles! Adorei sua crônica!

Anônimo disse...

Sílvia, livros só nos trazem coisas boas... rs.....

Helô, eles até poderiam existir de acordo com critérios mais atuais... rs... são raros... rs... talvez inexistentes...


Bjss para vcs duas!!!
Ana González

Priscila Haddad Nazar disse...

Adorei o texto Aninha!
Bjos
Priscila

Ju disse...

Adorei tb!!! bjos, Jú

Zoraya disse...

Ana, se nao fossem os livros na minha infância, nao sei o que teria sido de mim. A biblioteca do colégio era meu refúgio preferido. E sua linda crônica me trouxe lembranças boas, obrigada!