domingo, 31 de março de 2013

OUTROS TEMPOS >> Whisner Fraga

O legal naquela época era morar a cinco quadras da escola, poder andar de bicicleta pela rua sem temer um atropelamento, conhecer todos os vizinhos da mesma faixa etária, sumir durante uma tarde inteira sem que isso preocupasse nossas mães e, naturalmente, ter a sensação de que o bairro inteiro era uma grande família. Uns ajudavam os outros, uns se metiam na vida dos outros, uns controlavam as ações dos outros e no final da noite todo mundo sabia qual marido se esbaldava no puteiro. A vida era boa.

Então importaram algumas pragas: o shopping center, o condomínio fechado, o playground do prédio, as prestações a perder de vista e a violência. No fundo todos sabiam que não dava para viver de Toddynho a vida inteira. No interior imaginavam que as coisas iam bem, que isso era coisa da capital, mas era evidente que uma hora o mercado se saturaria e a caravana seguiria para as cidades pequenas. Daí para o sequestro relâmpago e os assaltos a mão armada acontecerem em uma minúscula cidade do Triângulo Mineiro foi só questão de marketing.

Para piorar a situação, os Datenas se espalharam pelas sucursais das grandes emissoras e os jornais descobriram no sensacionalismo a chave para a sobrevivência, de maneira que hoje não sabemos separar o boato da notícia. Temos medo de sair de casa, de chegar em casa e tudo que sabemos é que Fulano, do Bairro Não Sei das Quantas foi abordado por um malandro. Por outro lado, eu mesmo já presenciei motoqueiros apontando armas para motoristas parados no engarrafamento. A verdade é que não conhecemos as estatísticas e pode ser que a imprensa acabe dando ideias para um ou outro bandido.

De forma que sair da capital deixou de ser uma opção atraente. A globalização está aí para isso. A situação é a seguinte: escapamos da dengue para cairmos na gripe A, fugimos do sequestro para sermos pego pelo assalto. Ainda há como fugir, é evidente. Bastam um pouco de sorte e um curso de defesa pessoal. Mas eu falava da infância e, sim, trata-se do mais puro saudosismo. As crianças e os adolescentes de hoje se adaptaram aos tempos e aproveitam a juventude como fazíamos nos anos 1980: do jeito que podem.

E havia também o futebol das manhãs de sábado, hoje substituído pelo futsal das quintas, das onze à meia-noite. Isso em qualquer lugar, porque todo brasileiro é um craque e é obrigado a mostrar suas habilidades numa quadra em que vinte e dois ou vinte e três garotos de meia-idade se revezam em cena para aguentar os sessenta minutos de correria e bate-boca. Naquele tempo, rachávamos uma coca-cola depois das peladas e hoje ninguém é de ferro para atravessar a semana sem uma cervejinha ou um chopp antes e após o racha.

Parece que atualmente a tendência é que as pessoas se isolem. Só que na hora do vamos ver, notamos que o outro pode ser importante. Outro dia mesmo senti umas dores nos rins e mal conseguia andar com aquela maldita pedra querendo abandonar o corpo. Como morava sozinho, mesmo não tendo nenhum contato com meu vizinho, fui obrigado a recorrer a seus socorros. Não digo que precisemos da convivência forçada, mas quero crer que a cordialidade e o aperto de mão sempre terão seu lugar de honra diante da banalização da existência e da correria da sociedade moderna.

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3 comentários:

Zoraya disse...

Maravilhosa, essa Whisner. Sem saudosismos. Houve uma época, nem tão distante assim, em que as pessoas se importavam umas com as outras e as coisas, mesmo difícei, eram mais fáceis,por conta do convivio estreito. Linda, linda, essa.

whisner disse...

Obrigado Zoraya, eu também sinto falta de uns negócios que meu pai fazia: não existia contrato, era só na palavra. E ninguém passava a perna em ninguém... Abraços!

Ana Leticia disse...

Olá Whisner.

Apesar de morar em um condomínio fechado(Bragança), já ter sido vítima de sequestro(São Carlos),já ter confiado muito em "amigos" e ter quebrado a cara, acredito e resgato com os meus 2 filhos(7 e 9 anos)os bons momentos que vivi. Deixo eles sairem com amiguinhos de rua para o jogo de futebol na quadra da praça, andam de bicicleta com o meu marido nas ruas e por coincidência levamos um aluno do IF com cólicas de rim para o hospital e lá ficamos por boas horas à espera de sua melhora. Penso que várias pessoas nos chamam de trouxas, bobos ou ingênuos, mas preciso acreditar na beleza da humanidade.

Leticia