sexta-feira, 2 de agosto de 2013

BELADONA >> Zoraya Cesar

O Jornal dos Aposentados tinha uma seção de classificados amorosos e o anúncio era bem objetivo:

“Procuro um homem sério, acima dos 60, para  namorar, viajar, ficar junto. Sou aposentada e independente, não preciso de arrimo financeiro, só companhia. Se você está sozinho, escreva para caixa postal 22314.”

Antonio não tinha nada a perder, mas, talvez, a ganhar, pois mulheres aposentadas costumam ser muito carentes; essa, então, devia estar desesperada, para colocar anúncio em jornal. Encontraram-se num pé-sujo perto do Mercadão de Madureira, tão escondido, que até ele, freqüentador de botecos, teve dificuldade em chegar. 

Baixa, gorda, usava um vestido estampado em cores berrantes, e óculos de lentes grossas com aros pretos que lhe davam um certo ar de coruja desesperançada, realçado pelos cabelos curtos e espetados. Não era, definitivamente, bonita, e parecia ter bem mais que 60 anos. Que droga, pensou Antonio, vai ser duro de encarar, tomara que ao menos tenha algum dinheiro pra compensar.

Não que Antonio fosse algum Apolo, com suas roupas simples, a semi-careca, as unhas mal cuidadas. A mulher, no entanto, foi logo dizendo que bom que você respondeu, adoro conversar, passear em parques, faço jardinagem, conheço muito de plantas e ervas, e continuou a falar sobre a casa com quintal, o cachorro da vizinha que latia a noite inteira, mas, felizmente, morrera... Que mulher mais chata. Feia e chata era de matar. Antonio resolveu cortar o fluxo interminável e perguntar-lhe o nome:

- Beladona, Marlúcia Beladona. Significa bela mulher em italiano.

Antonio engasgou uma risada, era ironia demais num corpo só. Feiadona, isso sim, pensou ele, ao mesmo tempo que engatilhou uma velha e batida resposta:

- O nome lhe cai bem! - Antonio não fazia ideia do quanto estava certo.

Conversa vai, conversa vem, Antonio concluiu que se jogasse direito poderia tirar alguma vantagem da situação, Marlúcia parecia bem de vida e tinha casa própria. Foi com essa expectativa que ele aceitou visitá-la no dia seguinte, desde que ela pagasse a passagem. 

O lugar era ermo, mas a casa, simpática. Marlúcia fez questão de mostrar todos os aposentos e foi no quarto que, para o horror, horror, horror de Antonio, ela tirou a roupa e tentou seduzi-lo. Pensando nas vantagens de namorar uma mulher com casa própria e aposentadoria melhor que a dele, Antonio deitou-se junto dela, mas não chegou nem às preliminares, ela é feia demais, pensou. E mentiu deslavadamente, dizendo que gostara muito dela, queria um relacionamento sério, mas não estava se sentindo bem, não era jovem, essas coisas que um homem diz quando quer enganar uma mulher. 

Deus sabe como Marlúcia teria apreciado uma simples carícia. No entanto, ela apenas correu a preparar-lhe um chá, imagine se ia deixar o namorado passando mal. Ai, meu Deus, resmungou Antonio para si mesmo, o tribufu é romântico, Deus me livre de beijar essa jabiraca, mereço coisa melhor. Decidiu que pegaria um dinheiro emprestado (afinal, eram namorados!), tomaria o bendito chá e nunca mais apareceria.

Antonio continuou seu teatrinho, gabando a inteligência e doçura dela,  como se tivesse, realmente, assumido um compromisso.

- Você me acha feia? Você vai me procurar de novo?

- Que feia que nada, amor, eu é que estou um caco, mas da próxima vez até as paredes vão gritar. - Certo tipo de homem crê que toda mulher carente é, também , estúpida. 

Ela serviu o chá.

Mal ele tomara o último gole, Marlúcia – que nada bebera - aconselhou-o a ir embora, pois estava ficando tarde, a região era meio insegura. Ele ainda teve o descaramento de garantir que telefonaria no dia seguinte, mesmo não tendo a mínima intenção de fazê-lo. 

Assim que ele saiu, Marlúcia calçou luvas e, cuidadosamente, lavou a louça e queimou a folha e as frutinhas - muito semelhantes a mirtilo- , que serviram de base para a infusão oferecida a Antonio. Mais um que me rejeita porque sou feia, mais um que me despreza. Menos um a machucar meus sentimentos. Menos um a me enganar... essa cantilena amargurada durou todo o procedimento e, então, Marlúcia começou a rir. 

“Beladona” é um nome que me serve bem, pensou, não sou tão bonita, mas igualmente mortífera... e ria, ria de se acabar. Num rasgo de generosidade, até desejou que Antonio tivesse alucinações agradáveis antes de partir dessa para melhor. 

Os inquéritos ainda restavam inconclusivos, mas o veterano investigador Felipe Espada não acreditava em coincidências. Era o terceiro homem encontrado morto aquele ano, com o rosto retorcido, os olhos arregalados e a pele extremamente seca. Pesquisando, encontrou outros pontos em comum entre os três homens: tinham mais de 60 anos; eram solitários; assinavam o Jornal dos Aposentados. 

Algumas semanas depois do ocorrido, Marlúcia recebe uma nova mensagem na caixa postal. Um tal Felipe Espada queria marcar um encontro. Ela aceitaria tomar um chá?



Partilhar

13 comentários:

Ana Luzia disse...

prepare-se, Dona Marlúcia Beladona, seus dias de criminosa estão acabando! O investigador Felipe Espada não vai rejeitar uma noite na cadeia para a senhora!!!! HAHAHAHA...

rs, linda, Zo! adoro seu estilo!

bj,

Ana

Anônimo disse...

Tá bom, o Antonio morreu é de susto depois de ver a, como é mesmo, jabiraca peladona na frente dele.

Anônimo disse...

Ótimo,Zoraya! Como sempre rs
Claro que Belladona vai querer tomar chá com ele, ainda mais com esse sobrenome hahahahaha
Le donne sono un pericolo kkkkkk
Bjos, Cristina.

Universo dos Leitores disse...

Haaha, adorei a crônica! Super criativa mesmo. Ótima escolha!

Bjs

www.universodosleitores.blogspot.com.br

Cecilia Radetic disse...

E o Felipe Espada convidou logo pra um chá! Ah coitado...
Meninos, cuidado, agora não é mais jornal - é direto pela internet. Gravem o nome pra não cair nas garras da Marlúcia, hahaha

Carla Dias disse...

Menina, que Marlúcia tá precisada de um bom chá de camomila.
Sempre bom ler você :) Beijo!

Mauro disse...

Zo, já pensou em transformar esse Felipe Espada no protagonista de um livro? Eu leria com certeza... e acho que você seria ótima escrevendo histórias policiais. Aliás, nunca vi nada ruim que você tenha escrito! Felipe Espada pra mim tem um quê de Hercule Poirot...

Ana González disse...

Adorei, Zoraya. A natureza humana como ela é, na mosca!!! rsrs

silvia tibo disse...

Sensacional, Zô!!!!!
:D

silvia tibo disse...

Sensacional, Zô!!!!!
:D

aretuza disse...

super!!!!!!!!
continuação já!!!!

Erica disse...

Essa é que é a verdadeira RED!!! hahaha

Anônimo disse...

Acho que a Marlúcia deveria era preparar antes a infusão de catuaba e amendoim e só depois, muito depois, de aproveitar o material...dar o outro chá...rs...rs...Sucesso, é a nossa Beladona sanguinária, fã da Lucrécia Bórgia é claro!!!
Beijos
Aglae