quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ONDE SE RECARREGA A PAZ DE ESPÍRITO? >> Mariana Scherma

Pela segunda vez na vida, eu fui assaltada. Nada de muito dramático: o sujeito me abordou na saída do trabalho e levou meu dinheiro e celular. Ainda ficou irritadinho porque eu, tremendo de medo, não achava a carteira nem o celular, perdidos no buraco negro que habita minha bolsa. Tinha pouca grana e meu celular valia menos que o dinheiro que eu tinha, ou seja, o sujeito conseguiu comprar meia dúzia de cigarros de maconha, uma pedra de crack e olhe lá (não que eu saiba o valor dessas coisas, tô só supondo). Mas esse tipo de gente não pensa no futuro, amanhã, quando seu estoque de substâncias ilícitas tiver chegado ao fim, é só ele abordar outra pobre alma, prestes a perder um bem muito mais valioso que um celular: o sossego de andar tranquilamente pelas ruas.

E é isso que mais me deixa brava com os assaltantes. O ato em si já é terrível, tirar de alguém algo conquistado com trabalho honesto vai ser sempre um crime nojento. Mas um ladrão acaba levando da gente uma tranquilidade que demora a ser alcançada outra vez. Eu moro pertinho do trabalho e ele me abordou no caminho que faço todo santo dia. Ele me tirou a paz que é andar pela rua com os pensamentos ligados no modo shuffle. Agora, ando repetindo a mim mesma: “tem alguém estranho atrás? Vai mais rápido! Olha pra trás de novo!”. Minha paz de espírito é um dos meus maiores bens. E agora, estou naquela fase em que meus pensamentos me fazem agir como se eu estivesse caminhando por um campo minado.

Saio à noite do trabalho, não tarde, mas já está escuro. E ouvi de um fulano algo como: “mas você estava pedindo! À noite, nessa rua?”. É uma rua pouco iluminada, ok, mas pedindo pra ser roubada?! Acho um insulto como algumas pessoas pensam. A violência nunca vai ser um fato banal pra mim. Eu me recuso a esperar ser assaltada em cada esquina, apesar de agora estar andando ainda mais prevenida, ou melhor, desprevenida: nada de documento, quase nada de dinheiro, zero cartões. Chave na mão. Na bolsa, só mesmo o que não rola carregar na mão e não tem valor. Esse medo que a violência nos faz sentir é a pior parte do assalto, não que exista uma parte melhor.

E o que fazer? Enquanto existir gente que acha mais fácil ganhar dinheiro tirando dos outros, que está com a consciência tão noiada que não vê problema em não ter consciência dos atos, o melhor que a gente faz é se recuperar rápido do trauma e contar com a solidariedade dos amigos. Eu, agora, volto de carona com minhas amigas queridas (que entendem minha tremedeira ao sair do trabalho e assustar às vezes com minha própria sombra, mas vai passar, eu sei. Já passou uma vez...). Tentar ver algo positivo do acontecido também é sempre uma boa: um monte de ex chato não tem mais meu número de celular (achei o ocorrido um incentivo pra mudar o número). Ah, e ganhar o apoio do vizinho gato, que tentou consolar uma chorona desesperada, não é nada mal...  Mas absolutamente nada que seja suficiente pra justificar a falta de paz que eu estou enfrentando.

Hoje em dia, é assim: se você nunca foi assaltada, as pessoas assustam como se você fosse um alien que acabou de chegar a Terra. Infelizmente. Pra melhorar? Mais educação, mais iluminação nas ruas, leis mais severas, salários decentes, menos impostos... Tem muita coisa que pode ser feita pra diminuir os crimes, mas ainda não inventaram um jeito de fazer brotar consciência em pessoas que atormentam sua tranquilidade. E isso, pra mim, é o mais urgente de tudo.


Partilhar

Nenhum comentário: