quarta-feira, 21 de agosto de 2013

VOCÊ DUVIDA? MAS FATO É: EU SEI CAMINHAR
>> Carla Dias >>


Eu gosto de caminhar. Falta-me, confesso, o tempo dos calibrados pela disposição. Morro de inveja de quem não usa a frase “trabalho demais, então, não dá”, porque ainda não encontrei esse botãozinho que se aperta para que dê. Minha amiga diz que tudo gira em torno de um botãozinho sapiente que nos desperta para capacidades que julgávamos impossíveis: o início da dieta, a visita aos pais, a confissão de amor secreto, a caminhada, a primeira de.

Eu já caminhei muito nessa vida, pode acreditar, porque não tenho motivo para mentir. Caminhei por prazer, mas também por necessidade, usando aqueles passos que nos cansam, antes mesmo de acontecerem, como se fossem inapropriados para a jornada.

Antes que reverberem advertências: não tenho preguiça de caminhar. Na verdade, é algo que me dá muito prazer, principalmente porque tenho gosto pela observação da arquitetura das casas, dos prédios, do residencial e do comercial. Gosto de observá-los, enquanto passo por eles, música se engraçando comigo pelo fone de ouvido. Até a arquitetura das pessoas eu gosto de observar. Assim como as casas e os prédios, elas têm personalidade. Algumas revidam meu olhar com indiferença, outras, com curiosidade. Há aqueles que sorriem para mim a troco de contemplação. Em dia de boa sorte, há pessoas que me dizem gentilezas, emendando, mesmo sem saberem, a minha fé na humanidade.

Caminhar também incita o meu sonhamento. Quer me ver sonhar acordada é me botar para caminhar um caminho longo, longo, mas que não grite por retorno imediato. Retornos imediatos me fazem sentir cansaço antecipado. Aí já viu, descaminho. E a vida fica apressada, como se disputasse uma maratona.

Já caminhei muito para mostrar novidade a quem dela não sabia, como um novo restaurante, uma nova casa de show, e a melhor de todas: aquela padaria. Parar no meio do caminho para um café espresso ou expresso ou expressivo ou apenas experimental, gastar tempo com conversa fiada em cadência de agradamentos, que eles combinam lindamente com o perfume e a quentura do café.

Agora mesmo eu estou caminhando. Enquanto teclo meus pensamentos, caminho. Pode não ser a caminhada que se encaixe, perfeitamente, na sua concepção de caminhar. É que a literalidade tem seus momentos de preguiça e permite metáforas. E este é um milagrezinho que me apraz.

Caminho sem que tempo me segure pelas mãos, temperatura e temporais me impeçam de dar o passo. Nem mesmo o cansaço, o excesso disso e daquilo dos afazeres cotidianos me seguram. Eu caminho. Minha alma caminha. E apesar de ela não colaborar com a minha forma física, eu só desejo bem a ela. Desejo longas, atrevidas, inconstantes, infiéis à simetria, lúdicas, inspiradas, musicais, gentis, desbravadoras, sábias, catárticas caminhadas.

E quem quiser, pode me acompanhar.

carladias.com.br



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5 comentários:

Analu Menezes disse...

"(...)a literalidade tem seus momentos de preguiça e permite metáforas. "
Genial, moça. :D
Eu também caminho, mas diferente de você não olho pra ninguém, sigo meu percurso sem me ater a quem o cruza...gosto da noite, justamente porque não tenho que encarar ninguém, me sinto, talvez, mais protegida, por incrível que pareça...

Fernando Pacman disse...

Passando para conhecer o blog e já aproveitando para parabenizar pelos seus textos, são excelentes. Faz com que possamos refletir um pouco e isto é sempre muito bom.

Estou seguindo seu blog para acompanhar as atualizações e sempre que puder fazer uma visita.
Abraços

http://reaprendendoaartedaleitura.blogspot.com.br/

Carla Dias disse...

Analu... Eu já fui das que não observavam as pessoas a minha volta, ou no meu caminho. Posso lhe garantir que não é preciso encarar, e que contemplar vale a pena. Beijo.

Fernando... Muito obrigada! Fico feliz que tenha gostado.
Já dei uma passeada pelo seu blog. Bem bacana, viu? Vamos nos visitando :)
Abraço!

Zoraya disse...

Carla, Querida, você se superando a cada dia. Caminhe em direçao ao livro...

Carla Dias disse...

Zoraya... Caminharei :) Beijo!