domingo, 25 de agosto de 2013

A DEDICATÓRIA >> Whisner Fraga

O livro estava em destaque na estante e minha mãe ficava radiante quando alguém o via e perguntava qual assunto ele abordava. Ela aproveitava para mostrar a dedicatória na folha de rosto: "A queridíssima Izolina, com profunda admiração e carinho, de sua amiga, Fulana de Tal". Não me lembro o nome da autora e tampouco o título da obra. Em duas ou três vezes em que estive em Uberlândia, ela me perguntou se eu sabia algo sobre o autógrafo. Não, eu não fazia ideia.

Então ela relia o pequeno texto e tentava decifrar a idade daquelas frases. O livro fora lançado em 1973, disso eu me recordo bem, mas a bonita inscrição datava de 1998 ou algo do tipo. Questionava-me se era coisa minha, se eu solicitara à autora que assinasse. Não, não mesmo. Então ela pedia para que eu examinasse outra vez a letra, que era até familiar para mim, mas nada além disso. Daí, ela franzia as sobrancelhas, tentava recuperar algo perdido na memória e, com um suspiro doído, recolocava o exemplar em seu lugar de honra.

Em outra ocasião eu revia aqueles caracteres quando meu irmão chegou. Mamãe imediatamente requisitou a ajuda dele, que, sério, seriíssimo, alegou desconhecer completamente qualquer detalhe daquele oferecimento. Disse que talvez alguma amiga dela fosse a responsável. Dona Izolina o encarou, fez cara de descontente e concluiu que não era nada daquilo. Era um mistério, isso sim.

Como nada daquela história nos afetava, esquecíamos o assunto tão logo o livro de autoajuda era recolocado na prateleira. Só que, para minha mãe, a coisa toda fazia muita diferença. Para ela havia uma pessoa famosa, uma sábia,que a considerava amiga e que tivera a consideração de lhe escrever algo tão bonito, tão sensível. E ela não podia simplesmente esquecer que tinha uma conhecida tão chique. E me questionava: "Essa editora é conhecida, não é? É uma editora grande, né?" Sim, eu replicava.

Era setembro e combináramos, eu, minha irmã, sobrinha, irmão e mãe, de ir a um boteco vizinho para comer uns espetinhos e beber uma cerveja. Sempre que podemos vamos ao bar do Pedrão, que fica bem no centro da cidade. Naquela esquina, certa vez, sequestraram meu irmão e roubaram seu carro. Abandonaram a caminhonete em uma fazenda a 50 km dali - certamente eram bandidos fugindo de algum outro crime.

Acertamos de nos encontrar no apartamento de mamãe, que nunca havia mostrado a dedicatória à minha irmã. Aproveitou a ocasião, sacou a obra da estante e falou: "Você conhece essa pessoa? Sabe como foi que ela autografou esse livro para mim?" Ariadne começou a rir, continuou a rir, gargalhou e não queria dar uma pista sequer. Deixou Dona Izolina maluca. Ao fim de dez ou quinze minutos de tortura, ela soltou: "Essa letra é do Weslei". Minha mãe fez cara de "Como assim?" Certeza, a letra é do Weslei. Meu irmão, lá do canto, não se aguentava mais. Sim, a letra era dele. Depois de cinco anos de mistério, descobríamos que tudo não passava de uma sacanagem que meu irmão fizera com mamãe.


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2 comentários:

Zoraya disse...

Ahhhh, genial! Morri de rir. Mas, vem cá, depois dessa sua Mãe deserdou seu Irmão, né não? Muito bom.

whisner disse...

Zoraya, até hoje minha mãe fica chateada quando tocamos no assunto. E, claro, como filhos, adoramos tocar no assunto... Abraços!