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O INQUILINO >> Zoraya Cesar

D. Otília morava há muitos anos naquele apartamento.  Saía de casa pouquíssimas vezes, apenas para tomar chá com Padre Tércio, mas, em compensação, recebia muitas visitas, todas com hora marcada. Uma vez, o porteiro, Seu Eli, comentou que era bom ter tantos amigos, e a velhinha riu:

- Eles não vêm me visitar, Seu Eli, mas o inquilino que mora comigo.

Ele não discutiu, sabia que D. Otilia morava sozinha, devia estar meio matusquela, coitada. Seu Eli gostava de ver a diversidade de pessoas que visitavam D. Otília: senhoras elegantes, trazidas por motorista particular; moças tímidas, que entravam de olhos baixos; homens, também, geralmente com ar desconfiado; até uma atriz famosa da novela das oito aparecia de vez em quando. Jamais perguntara coisa alguma, Seu Eli não era bisbilhoteiro, era trabalhador. Conformava-se em observar o vai-e-vem dos visitantes.  

E assim passava a vida, seguida, inescapavelmente, pela morte. Sim, porque, um dia, D. Otília morreu. Seu Eli ficou profundamente triste, gostava da velhinha e das visitas, que o distraíam do enfadonho trabalho de porteiro.

Padre Tércio veio, cuidou da parte prática da morte, marcou a Missa, fez tudo o que estava ao seu alcance, como religioso e como amigo. Inclusive avisar ao filho da falecida, que há vários anos não falava com ela. E entregou a chave do apartamento ao porteiro, orientando-o a deixar as visitas subirem. A cada dia 10, ele deveria pegar o dinheiro de um cofre no quarto da finada, pagar todas as contas do apartamento e ficar com metade do que sobrasse, dando a outra metade para um abrigo de idosos. Padre Tércio se despediu:

- Esse ano o senhor compra a casinha de sua Mãe, lá no Recife.

Seu Eli levou um susto, como o Padre adivinhara? Nunca falara disso a ninguém!

A rotina voltou, para alegria do porteiro, que se divertia com o desfile de visitantes, nem parecia que D. Otília morrera. Esperava ansioso o dia 10, quando finalmente descobriria o que de tão estranho acontecia no apartamento. 

Antes desse dia, porém, quem chegou foi o filho de D. Otília - um sacripanta interesseiro que abandonara a Mãe porque ela sustentava um abrigo para pobres, mas não lhe dava dinheiro – intitulando-se seu herdeiro e subindo ao apartamento sem pedir permissão. Seu Eli avisou Padre Tércio, mas este lhe disse para não se preocupar, as coisas seguiriam seu próprio rumo Divino. 

D. Otília dormia no quarto de empregada, onde havia um catre e um armário quase sem roupas. Geladeira, fogão, uma poltrona, um aparelho de som e uma estante cheia de livros, era só o que havia. Seu filho a maldizia pelo ascetismo, furioso por nada encontrar de valor. 

No quarto principal, porém, contrastando com a humílima decoração do resto da casa, encontrou um sofá finamente estofado; uma mesa de mármore rosa com pés e cadeiras de ferro trabalhado; e uma cômoda de jacarandá, pesada e maciça, sobre a qual cartas de baralho, punhais, taças de cristal, pedras e imagens pagãs misturavam-se às de Santos. Havia também um cofre de prata, que ele escondeu na mochila. As outras coisas, jogou, displicentemente, num saco de lixo, enquanto calculava por quanto poderia vender aqueles móveis. Ainda vou lucrar alguma coisa com aquela velha chata, pensava. Deu uma última olhada em volta e só então notou o quadro pendurado na parede. 

Nele, um homem de meia idade, com severos olhos escuros e cavanhaque louro sobre a boca irônica, vestido de calças pretas, blusa azul brilhante de mangas largas e uma faixa vermelha na cintura na qual se acomodava um grande punhal. A figura era impressionante e parecia olhá-lo de maneira tão desaprovadora, que o filho de D. Otília colocou-o no chão, virado para a parede. Deixe estar, resmungou, que vou vender você também. 

E foi embora, ansioso por chegar em casa e apoderar-se do conteúdo do cofre.

A primeira coisa que viu ao abrir a porta foi a mulher sentada ao sofá, vendo novela. E, ao lado dela, o homem do quadro, com as mesmas roupas, o mesmo olhar severo, o mesmo punhal embainhado. 

-  O que você está fazendo aqui? – berrou o filho –Vou chamar a polícia!

- Tá doido?– pergunta a mulher, atônita – Tá falando com quem?

- Com esse homem aí do seu lado.

- Que homem, tá doido?

O filho de D. Otília sentiu um baque no coração. 

- Já que você me desalojou, vou morar na sua casa até que tudo volte ao normal. E devolva o cofre, ou vou assombrá-lo até o final dos seus dias – falou o Cigano, acariciando significativamente o cabo do punhal e dando uma gargalhada.

A mulher ainda gritava que ele estava doido quando o filho de D. Otilia desmaiou. 

Comentários

Anônimo disse…
querida, como sempre surpreendente! adorei a cronica, e bem feito pro filho da Otília, hahaha

Cecilia
Mauro disse…
kkkkkkkkk Adorei! Levou o hóspede na aba!
Erica disse…
Fala sério! Cumassim?! Esse padre Tércio era espírita? Ou era do candomblé? Muuuuuuito estranho rsrs
Anônimo disse…
Bem feito, quem mandou mexer com Cigano? Esse filho devia mesmo ser assombrado o resto da vida.
Alexandre Durão disse…
Zoraya. Como sempre, gosto da forma como você toca o que é misterioso. Engraçado que percebo que é diferente, mas ainda não consegui entender exatamente o porquê. Sei que não é apenas na forma, tem mais alguma coisa, mas me foge. Só tem uma maneira de descobrir: continua escrevendo e eu continuo lendo. Beijos.
aretuza disse…
suuuuuuper!!!!!!
André disse…
Muito justo, ele queria a herança, levou tudo! Essa linha combina muito contigo!
Yasmin Madeira disse…
Que declicia ler suas crônicas!
Surpreendentes, inteligentes e bem humoradas!
Bjs

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