segunda-feira, 5 de agosto de 2013

INCURSÃO XVII: DA MÁQUINA DE ESCUTAR CACOS DE VIDRO >> André Ferrer

“Suspiros, choros, gritos escutei ressoando no ar baço de estrelas, de quanto ao começar também chorei ­ Línguas várias, horríveis falas delas, e palavras de dor, acentos de ira, vozes altas e roucas, batedelas de mãos com mãos, tudo em tumulto gira, naquela aura sem tempo destingida, como areal que um turbilhão aspira.”
(A Divina Comédia, Inferno, Canto III – Dante Alighieri)


Era agradável caminhar num dia quente como aquele. De quando em quando, a luz do sol penetrava o dossel de coníferas e o nosso corpo ficava ainda mais ansioso durante a caçada ou a pescaria.

Atravessávamos a floresta em alerta máximo. A qualquer momento, um cervo ou galinha selvagem poderia surgir. Tirante o peso das mochilas e dos rifles, a paisagem e o gozo daquele intento nos aliviava. Era muito bom que as agulhas de pinheiro crepitassem sob os nossos pés calçados com mocassins. Há vários centímetros do chão verdadeiro, a sensação era de voo. Decerto que voávamos auxiliados pelos despojos da floresta. Uma camada de matéria orgânica desprendida do cume das coníferas a nos elevar ainda no primeiro ensaio. E seriam tantos os voos futuros! Cada vez mais alta, com motivações bem distintas da caça e da pesca, a nossa equipe repetiria a caminhada no correr dos tempos.

Ao meu lado, um ser tão brilhante, que eu mal conseguia firmar os olhos na sua direção. Era de cor violácea e turquesa e mudava de cor enquanto me obrigava a olhar mais adiante: um ser opaco, ainda assim iluminado, flutuava sobre o solo verdadeiro na mesma altura em que eu e o ser brilhante estávamos – a uma distância, é necessário dizer, bem maior do que a de costume nas pescarias e caçadas do passado – e isto deixava nós três emocionados – havia outros, eu sentia, mas não lograva identifica-los.

O mais opaco era também o tagarela: recebia-me, sempre, com alguma frase edificante e, várias vezes, já repetida.

“Fora da caridade não há salvação”, era uma das preferidas.

O ser iluminado, azul e violeta, fazia-me refletir profundamente sobre a virtude do silêncio.  “Quem sabe, Alan Moore tenha visitado este plano, tamanha a semelhança do meu amigo de pescarias com o célebre Dr. Manhattan!”, eu pensava.

“Indiferente. Totalmente indiferente”, fez o brilhante para o ser opaco. “Escute uma coisa, humanista crédulo e irracional. Pare de repetir sandices! Assim, você interfere na educação do nosso protegido terreno. Cale a boca! La embaixo, a tolerância já basta... Já é um tipo bem justo de caridade. Suportar o mundo e os homens chega a ser heroísmo.”

Em outro episódio – não menos “quadrinesco” –, vi-me numa geringonça voadora. Seu interior, tão exíguo quanto ao dos nossos helicópteros militares. A minha “equipe” andava prestes a saltar a guisa de boinas verdes, marines ou o que o valha, porque um avião tinha despencado. Assim, o sujeito opaco incumbiu-me do porte de uma caixa – a tal máquina de escutar cacos de vidro.

Eu estava apavorado. Como ser menos evoluído, missões assim me pareciam confusas e misteriosas. Um homem que não teme ações do gênero, definitivamente, ou está livre das vicissitudes materiais ou está muito perto disso! Não era o meu caso. Portanto, amarelei no momento do salto. Centenas de metros abaixo – muito mais alto, evidentemente, do que uma pútrida camada de folhas podia alcançar –, um avião de carreira jazia destroçado. Almas em cinzas, dentro e fora da área de impacto, aguardavam o resgate. O Dr. Manhattan podia vê-los. Eu e o outro não podíamos ver nem ouvir.

Então, o “brilhante” afastou o “opaco”. Pediu que cessasse a tagarelice. Riu-se dele e de meia dúzia das suas frases prontas.

“Acalme-se”, disse para o trêmulo, que era eu. “Pense naquele regato onde pescávamos”, sugeriu.

Quando isso acontece, meus sonhos terminam calmamente. Acordo. Lembro-me apenas de fragmentos que, durante o dia, tento emendar e dispor com algum sentido. Naquela manhã, foi exatamente assim.

Dr. Manhattan atirou energia sobre mim. Lembro-me de ter entrado nos destroços. Ajudei o irmão “opaco” – grande atirador e recordista da modalidade fly fishing –, a montar a máquina. Estávamos sozinhos. Logo, Dr. Manhattan agia no resgate porque apenas ele podia vê-los. Da nossa parte, juntamos as tais amostras de vidro moído e colocamos no compartimento analítico do aparelho.

Indescritível.

O coro das vítimas do acidente, instantaneamente gravadas nos cristais de silicato, ainda ecoa, terrível, real, suplicante, dentro da minha cabeça.

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