sábado, 17 de agosto de 2013

LAURA, ISSO PASSA [Ana González]

Ela tem vinte e cinco anos. Clara e cabelos escuros na altura do pescoço. Maquiada, brincos e uma roupa alinhada. Era um almoço de aniversário, um churrasco no alto do prédio, com ampla visão do bairro e da cidade, o Museu do Ipiranga ao longe, com farta vegetação à volta, o céu azul e um calor convidativo à cerveja e à celebração.

Mas, ela era só tristeza. Dos lábios vermelhos de batom, saíram palavras de mágoa. O namoro tinha acabado havia quinze dias. E o que doía mesmo era a maneira como ele terminara o relacionamento. Foi se afastando, devagarzinho e depois, pelo telefone, rápido e sem muito tempo para conversa. Na verdade, isso era o grande desconsolo. Frustrante. Como? Sem explicação?

Durara por longos cinco anos e meio. Onde empacotar e guardar tanta memória? Em que desvão da vida enterrar um amor desastrado? Chegara a hora de revisão dos comportamentos: aquele dia, aquela conversa, aquele telefonema. Agora talvez tudo fizesse mais sentido.

Infelizmente, uma história pouco original. E a reação de Laura possivelmente também repetirá o lugar comum. Ela vai chorar, sofrer, conversar tempos longos com amigas, ao vivo e por telefone, skype e msn, envelhecendo e encorpando a tristeza e as mágoas, ouvindo as opiniões variadas, medindo e comparando as sugestões.

Entretanto, nada aliviará as sensações de altos e baixos, de humores e emoções voláteis, imagens a lhe visitar os olhos vidrados, a atenção distraída. Quem solucionará o problema? Quem lhe falará a palavra mágica que a libere da dor de amor?

Ninguém, Laura. Essa demanda será tempo perdido. As soluções são, em geral, paliativas e não vão á raiz.
 
Sei que será muito difícil você me ouvir, pois todo o contexto social lhe conta uma história diferente, que pesa em seu comportamento de forma muito sutil. Ouvi escapar de sua boca a reclamação com tom fatal: “Já tenho vinte e cinco anos.” Você talvez acredite mesmo que sua vida só será completa quando se casar. Talvez se sinta sem opções e - pior - velha.

Você se permitirá outras alternativas? A sugestão para abrir espaço entre sua dor e a realidade talvez não faça sentido. Se eu lhe pedir que coloque em outra perspectiva o sofrimento, no canto que lhe cabe, fará menos sentido ainda. Como observar de forma mais distante se dói tanto? É difícil relativizar o sofrimento neste momento de falta em que escorregamos para um buraco que se abre.

Em vão tento um diálogo mudo e me faço cúmplice a partir do feminino que nos une. Lembro neste instante de todas as mulheres que já se sentiram assim tão sem esperança em momento de plena juventude. Tão aberta à parceria e a uma vida a dois. O peso que sobrou para você, muitas mulheres já levaram e continuam levando nos ombros. Uma espécie de luto pela perda de um sonho, sem contar o abandono da própria identidade em relação a um conceito social cobrador e até repressor.

Laura, esse tipo de homem não dá. Você apostou muitas fichas nesse jogo. Foi fiel. Hoje, você pede revanche à vida: “Ele ainda vai se lembrar de mim.". Não vai, Laura. Ele vai tentar esquecer tudo e vai fazer novos relacionamentos, criar novas situações. Para se lembrar, teria que ser outra pessoa.

Seja você outra pessoa. Seja a mulher linda que você é. Lembre-se agora das mulheres de Atenas, das turcas de hoje, das mulheres de todos os tempos e de todos os lugares. Ponha-se ao largo dessa tormenta. Nem é necessário queimar sutiã ou dizer palavras de ordem. Faça uma revolução interna. Que seja breve este momento triste.

Depois dele, faça a sua hora de preparo para o momento seguinte, para o encontro com o masculino, em outra esfera de grandeza. Haverá outro homem à sua espera. Mude a cor do batom e refaça a maquiagem.

Isso, com certeza, vai passar.

www.agonzalez.com.br



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5 comentários:

Anônimo disse...

Lindo Aninha!! Bjos
Pri

Ana Vargas disse...

Espero que a Laura guarde suas palavras no coração, Ana.
Elas valem muito.

Ana Claudia

Varlice disse...

O remédio para o mal da Laura, assim como para qualquer outro mal, tem um nome: tempo.
Ele passa, nós também passamos e os sofrimentos se tornam poeirinha na estrada de nossas vidas.

Zoraya disse...

Ana, cometário tardio. Que beleza de texto, hein? Bem podia ser dado como presente de 15 anos a todas as meninas, para se tornarem mulheres menos sofridas. Beleza!

Ana González disse...

Zoraya, não existe comentário tardio.O tempo é muito relativo..rs. Sua presença é importante. Isso sim é valia. Obrigada. Bjs