sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PLANOS MACABROS >> Zoraya Cesar

Quando o novo vizinho chegou, todos ficaram curiosíssimos com a novidade. Há muitos anos não acontecia nada de relevante, a não ser a doença de D. Adalgisa, que piorava a olhos vistos, mas que não morria nunca.

O vizinho, um cinquentão bem apessoado, no entanto, era avesso a intimidades. Sem ter como saber quem ele era ou o que fazia, os moradores perderam o interesse, decepcionados. No entanto, sendo a opinião pública mais móbile que piuma al vento, muta d’accento e di pensiero, do desapontamento surgiu uma espécie de temor respeitoso por sua seriedade, seu hábito de falar baixo, olhando nos olhos do interlocutor. Nas reuniões de condomínio, sua palavra era sempre acatada, encerrando qualquer discussão.

A vida seguiu, ele foi absorvido pelo cotidiano do prédio e ninguém mais pensava nele em especial.

Ninguém, eu disse? Não exatamente. Havia alguém que pensava incessantemente nele. Alguém tão despercebido, que se fosse invisível talvez chamasse maior atenção. Quase, mesmo, uma ninguém, conforme sua mãe, a intratável, intragável, insuportável D. Adalgisa. A velha viúva nunca poupou esforços para amassar a filha sob sua personalidade forte e mesquinha. Jocélia era seu nome, e passara a vida ouvindo que não prestava para nada e outras assertivas igualmente construtivas. Nunca teve namorado ou amigas e trabalhava como contadora numa loja de roupas. A doença da mãe consumia praticamente todo o dinheiro e Jocélia não tinha para onde ir, nem forças para ir a algum lugar.

Ela estava desesperada para mudar de vida e só via uma saída. Mas D. Adalgisa nunca morria, por mais que os médicos afirmassem categoricamente que ela ainda respirar era um milagre. Jocélia não entendia, a velha podia estar morrendo, mas tinha ânimo suficiente para infernizá-la, com aquela voz aguda e gasguita, reclamando da comida, do emprego medíocre da filha, de tudo, de qualquer coisa, dia e noite, dia e noite, noite e dia, sem parar, sem parar, sem parar.

Uma noite, ao ouvir o vizinho abrindo a porta – moravam lado a lado -, Jocélia tomou coragem e foi até ele, implorando-lhe que a acompanhasse, pois sua mãe estava agindo estranhamente, causando-lhe medo. Ele, prestativo, foi. E, realmente, D. Adalgisa zanzava pela casa, batendo nas paredes, mastigando a dentadura, balbuciando coisas incompreensíveis. Tentou jogar um copo neles, mas, de repente, acalmou-se, deitou no sofá e dormiu.

Jocélia agradeceu, e aproveitando o raro contato humano, desabafou todo seu drama, e o temor de que D.Adalgisa se descontrolasse, machucando-a seriamente, ou a si mesma, pois não tinha dinheiro para contratar uma enfermeira ou interná-la Sem condições de comprar um ar refrigerado, elas tinham de dormir com as janelas abertas, por isso Jocélia acordava diversas vezes durante a noite, para ver se a mãe dormia. O homem tudo escutou, compadecido, comentando que, realmente, as olheiras de Jocélia estavam bem pronunciadas. E, pondo-se à disposição para qualquer problema, despediu-se.

No quarto e sala conjugado das duas mulheres, Jocélia, pela primeira vez em muito, muito tempo mesmo, sorriu. Suspender o remédio da mãe estava dando certo, todos comentavam que D. Adalgisa estava ficando matusquela e o quanto a coitada da filha era tão boa, dedicada, amorosa. Já repararam em suas olheiras e na pele amarelada? A pobrezinha nem sai de casa, para tomar conta da mãe. Boa moça, diziam, embora só lembrassem de seu nome por causa dos berros constantes que D. Adalgisa atirava contra a filha.

E agora, o homem mais confiável do prédio testemunhara in loco, ao vivo e em cores, o comportamento errático e agressivo de D. Adalgisa. Dali a mais alguns dias, desmaiarei na portaria, todos verão o quanto estou exausta, se eu dormir a noite inteira, com a janela aberta, nesse calor infernal, e minha mãe, durante um ataque, se jogar, todos entenderão. Durante a madrugada, ninguém a veria dando uma ajudinha para D. Adalgisa descer ao térreo via expressa, sem paradas. E o vizinho seria sua mais forte testemunha.

E ela estaria livre, desacorrentada, solta na vida, vadia, como sempre sonhara. Talvez até o vizinho se apaixonasse por ela, seria maravilhoso. E Jocélia só não dormiu porque precisava que suas olheiras fossem reais.

Em seu apartamento, Felipe Espada ensimesmava, a cerveja esquecida na lata, o livro aberto nos joelhos. Tem algo estranho naquela casa, naquela gente, na velha, na filha. Vinte anos na força de polícia como investigador e dez como delegado haviam-no ensinado a confiar nos seus instintos. Samuel Espada não era homem de se deixar enganar por aparências. E agora ele não descansaria até descobrir o que havia de errado no apartamento ao lado.

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8 comentários:

Mauro disse...

Adorei, Zo!! Quero a continuação!!! (mas acho mesmo que fica melhor sem uma, com as consequências assim, "no ar"). Vc arrebenta!

silvia tibo disse...

Hum... também quero a "parte II"...
Ótimo, como sempre!

Anônimo disse...

O plano da Jocélia tá prestes a ir por água abaixo, mas estou torcendo por ela, já chega de sofrimento pra essa mulher! Ela só está dando uma ajuda pra Deus!

Anônimo disse...

Zo, quero maissss!!!!! Vou ficar a semana inteira com a história na cabeça até ler o desfecho. Beijos. Aglae

Anônimo disse...

menina, vc tá ficando cada vez melhor, esse tom de suspense é único! parabéns!!

Cecilia Radetic disse...

Agata Zoraya, rsrs

Erica disse...

Fala sério! Acabou? Òbvio que vc torturou todo mundo com uma história sem fim, para ficarmos implorando pela Parte II. Você é mesmo maquiavélica..rs

aretuza disse...

Genial!!! Claro que quero a parte II, a missão!!!E logo!!!