Pular para o conteúdo principal

UMA PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS
>> Carla Dias >>

I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Da canção “Bridge Over Troubled Water”, de Paul Simon

Ela caminha pelas ruas da cidade com suas ruas entupidas por carros, um concerto de buzinas, semáforos avariados, faixas de pedestre esmaecidas. Gosta quando está garoando, nem leva guarda-chuva na ocasião. Acha graça sobre como as gotinhas de chuva deixam seus cabelos esbranquiçados, como se ela fosse, ainda que jovem, uma senhorinha de cabelo ruim, mas bonito.

Caminha e sempre atenta às vitrines, mas não porque deseja comprar produtos, e sim porque se interessa pelo o que deslumbra as outras pessoas. Sente-se atraída pelo desejo alheio, pelo o que nutre esse desejo, muito mais do que pelos regalos materiais.

Atravessa a passarela, alcança a avenida. Segue rumo ao shopping center que, até outro dia, era apenas um projeto que tinha cara de que acabaria como um monte bem grande de entulho enfeitando a paisagem urbana. Agora é esse lugar desprovido de relógio, onde funcionam algumas das lojas para as quais a empresa na qual ela trabalha presta serviços. Uma vez por semana, ela faz esse mesmo caminho, tem essa mesma função: buscar as ordens de serviço para providenciar a montagem dos móveis dos clientes.

O mais interessante dessa caminhada é o caminho. Nem mesmo a espera, que sempre tem de haver quando ela chega às lojas, quando ela dá de se distrair com as camas e as estantes, e principalmente com as poltronas, é tão interessante quanto o caminho.

Assim que sai do escritório, ela inicia uma viagem que seus pés não acompanham. São vinte minutos de caminhada até chegar lá, e ainda tem a volta. É tempo suficiente para ela imaginar mil cenários, ruminar oportunidades, criar desfechos, como o que precisa para sua história de amor platônico pelo amigo de sua amiga que se tornou seu amigo, aquele de quem rouba sorrisos, de vez quando, e parece que eles podem sustentá-la para o resto da vida. Não entende por que, mas ele lhe deu uma fotografia 3x4. E enquanto caminha em direção ao shopping, carrega essa foto na mão, como se andasse de mãos dadas com a pessoa que imagina, dia desses, irá corresponder a esse amor margeado por silêncios.

O mistério que mora em tais caminhadas é que elas podem durar mais do que o tempo que realmente duram. Mesmo mudando de emprego, perdendo a fotografia – e o contato - do amor que não amava de volta, tornando-se um tanto avessa aos shoppings, enfeitando cabelos com a garoa. Mesmo tendo passado por tais folhas de calendário, pelos dias e seus horários comerciais, as saídas com os amigos, as fugas debaixo do cobertor, ainda assim ela, vez ou outra, olha para o antes como se ele fosse agora. Dura pouco, mas a experiência é pungente. Vê-se presa naquele momento em que as questões mais importantes de sua vida ainda eram simples, porque ainda podiam ser imaginadas. Diferente de hoje, quando muito de sua biografia já está decidido, e seus cabelos são de senhorinha e brancos, ainda que em dia de sol.

Lembra-se do que lhe escrevera o amor platônico de foto 3x4 perdida. Não sabe se é de sua autoria ou de quem seria, mas faz sentido agora: “o amor é uma ponte sobre águas turvas, e você sabe disso...” Águas nas quais ela mergulhou. Ponte na qual se sentou para apreciar fim de dia e, às vezes, pensar naquela que, em dia de semana, caminhava pela cidade sendo engolida pelas possibilidades de um futuro que estava ali, logo adiante.

O amor é uma ponte sobre águas turvas. Hoje ela sabe disso.



carladias.com


Comentários

Zoraya disse…
Carla, que dor! Não dá para ler num domingo de chuva! Por outro lado... que beleza, hein? Quando a sua veia lírica ataca, nao tem pra ninguém.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …