quarta-feira, 28 de novembro de 2012

UMA PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS
>> Carla Dias >>

I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Da canção “Bridge Over Troubled Water”, de Paul Simon

Ela caminha pelas ruas da cidade com suas ruas entupidas por carros, um concerto de buzinas, semáforos avariados, faixas de pedestre esmaecidas. Gosta quando está garoando, nem leva guarda-chuva na ocasião. Acha graça sobre como as gotinhas de chuva deixam seus cabelos esbranquiçados, como se ela fosse, ainda que jovem, uma senhorinha de cabelo ruim, mas bonito.

Caminha e sempre atenta às vitrines, mas não porque deseja comprar produtos, e sim porque se interessa pelo o que deslumbra as outras pessoas. Sente-se atraída pelo desejo alheio, pelo o que nutre esse desejo, muito mais do que pelos regalos materiais.

Atravessa a passarela, alcança a avenida. Segue rumo ao shopping center que, até outro dia, era apenas um projeto que tinha cara de que acabaria como um monte bem grande de entulho enfeitando a paisagem urbana. Agora é esse lugar desprovido de relógio, onde funcionam algumas das lojas para as quais a empresa na qual ela trabalha presta serviços. Uma vez por semana, ela faz esse mesmo caminho, tem essa mesma função: buscar as ordens de serviço para providenciar a montagem dos móveis dos clientes.

O mais interessante dessa caminhada é o caminho. Nem mesmo a espera, que sempre tem de haver quando ela chega às lojas, quando ela dá de se distrair com as camas e as estantes, e principalmente com as poltronas, é tão interessante quanto o caminho.

Assim que sai do escritório, ela inicia uma viagem que seus pés não acompanham. São vinte minutos de caminhada até chegar lá, e ainda tem a volta. É tempo suficiente para ela imaginar mil cenários, ruminar oportunidades, criar desfechos, como o que precisa para sua história de amor platônico pelo amigo de sua amiga que se tornou seu amigo, aquele de quem rouba sorrisos, de vez quando, e parece que eles podem sustentá-la para o resto da vida. Não entende por que, mas ele lhe deu uma fotografia 3x4. E enquanto caminha em direção ao shopping, carrega essa foto na mão, como se andasse de mãos dadas com a pessoa que imagina, dia desses, irá corresponder a esse amor margeado por silêncios.

O mistério que mora em tais caminhadas é que elas podem durar mais do que o tempo que realmente duram. Mesmo mudando de emprego, perdendo a fotografia – e o contato - do amor que não amava de volta, tornando-se um tanto avessa aos shoppings, enfeitando cabelos com a garoa. Mesmo tendo passado por tais folhas de calendário, pelos dias e seus horários comerciais, as saídas com os amigos, as fugas debaixo do cobertor, ainda assim ela, vez ou outra, olha para o antes como se ele fosse agora. Dura pouco, mas a experiência é pungente. Vê-se presa naquele momento em que as questões mais importantes de sua vida ainda eram simples, porque ainda podiam ser imaginadas. Diferente de hoje, quando muito de sua biografia já está decidido, e seus cabelos são de senhorinha e brancos, ainda que em dia de sol.

Lembra-se do que lhe escrevera o amor platônico de foto 3x4 perdida. Não sabe se é de sua autoria ou de quem seria, mas faz sentido agora: “o amor é uma ponte sobre águas turvas, e você sabe disso...” Águas nas quais ela mergulhou. Ponte na qual se sentou para apreciar fim de dia e, às vezes, pensar naquela que, em dia de semana, caminhava pela cidade sendo engolida pelas possibilidades de um futuro que estava ali, logo adiante.

O amor é uma ponte sobre águas turvas. Hoje ela sabe disso.



carladias.com




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Um comentário:

Zoraya disse...

Carla, que dor! Não dá para ler num domingo de chuva! Por outro lado... que beleza, hein? Quando a sua veia lírica ataca, nao tem pra ninguém.