quarta-feira, 21 de novembro de 2012

DE FOTONOVELA NA CABEÇA >> Carla Dias >>



De fato, é muito difícil manter a paciência em determinados dias. Sabe aqueles em que nos levantamos e só de colocarmos os pés no chão um desafio é gerado? Dias assim...

Ao mesmo tempo, são dias como esses que nos fazem repensar nosso papel como seres humanos e suas profissões, seus comprometimentos, suas escolhas, enfim, tudo o que trazemos como bagagem por sermos as pessoas que somos.

Em dias como esses, repensamos até onde iríamos por determinadas pessoas, se realmente é necessário sustentar certas opções ou se há, sem grandes melindres ou injustiças, uma maneira de mudarmos de opinião, porque errar faz parte do repertório da vida, e às vezes há sim como melhorarmos nossas escolhas.

Nesses dias, nós direcionamos nossa atenção aos assuntos menos debulhados, como o questionamento sobre os tão bem delineados planos para o futuro. Em fato, pensar que planejamos o que seja, enquanto o dia tende a lhe impor tantas provações, nos leva a percebemos a fragilidade do definido.

Tudo parece distante e indiferente ao nosso incômodo, entre um escorregão na rua, uma exigência surreal no trabalho, a dor de cabeça que não passa nem mesmo com analgésico, a voz irritante de alguém que não conhece vírgulas e adora monólogos. Quando o café fresco não provoca a sensação de conforto de sempre ou o telefone não para de berrar por atenção.

Em dias assim, aqueles cinco minutos trancados no banheiro, só para aproveitar um tantinho de silêncio, parecem uma oportunidade de ouro. E a gentileza que outra pessoa despende conosco é imensamente bem-vinda. E observamos a nós mesmos sem as urgências corriqueiras, sem as bobagens acumuladas durante a rotina. Abordamos nossos sentimentos sem as eiras e as beiras impostas pelo exagero que consumimos em dias menos exigentes.

Tendemos a ensimesmar delírios, porque nos pegamos libertos dos limites e entregues aos rompantes da imaginação. Há quem crie, em pensamento, um tipo de fotonovela, emendando as cenas como se fossem de filme. Intercalando diálogos como se fossem autores. Misturando humor e drama e sem condições de chegar a um desfecho. Tudo fica em suspenso, como que à espera do próximo exemplar da revista.

Há dias em que precisamos da paciência como companhia com um apego desvairado. Dias em que a nossa percepção observa a nossa existência sem o deboche dos rótulos, a severidade de certas escolhas, a intermitência dedicada ao recuperar o fôlego. E tudo se mistura, levando-nos a um lugar desconhecido dentro de nós mesmos.




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2 comentários:

Zoraya disse...

Bom e interessante como sempre,Carla!

Carla Dias disse...

Zoraya... Obrigada! Beijo.