sábado, 17 de novembro de 2012

CARTA À AMIGA [Ana González]


Saí do cinema após ter assistido Tropicália com uma forte sensação, as mãos tremendo, as faces queimando. Um documentário bem feito com informações tanto culturais como do contexto político do final dos anos sessenta.

Mas, havia muito mais no assunto tratado. Havia parte de mim. E eu fiquei desperta com uma necessidade imensa de falar sobre o que eu tinha assistido. Era a história de um momento de nosso país que se fazia na tela, mas era também parte de minha vida e da vida da amiga que me acompanhava.

A primeira das sensações foi de alegria perturbadora, que me puxava um sorriso nos lábios e um encantamento nos olhos. Tinha sido tudo verdade: tudo o que havíamos vivido. Você sabe, amiga, foi incrível e estava tudo lá, com riqueza de detalhes, que a memória já não guarda e vão esmaecendo no tempo.   

Foi bom rever as pessoas que apareciam nos festivais da Record, as músicas que eram aprendidas da noite para o dia, o que ocupava a nossa mente e ainda não sabíamos se ia permanecer. Não foi moda passageira. Ficou para a história coletiva.

Era também o tempo da ditadura. E nos cantos e banheiros da faculdade, havia notícias das bombas nas ruas. Havia a movimentação dos estudantes pelas vagas nas faculdades e as palavras de ordem na luta pela modificação do mundo. Sim, mudar o mundo. Lembra-se?

Durante o documentário me espalhei em meio aos cachos da cabeleira do Caetano e sua magreza. Ele mudou muito, menos sua baianice pachorrenta. Também nós mudamos. E como nós éramos, amiga? Éramos jovens de uma boniteza como só a natureza pode fazer.

Outras sensações me vieram á lembrança. Tínhamos ideais e esperança, acreditávamos. E também tínhamos angústias, dúvidas. Vivíamos em paradoxos e em crises. Era a fase da ingenuidade e a bondade estava mais próxima de nós. Íamos por onde nos levavam nossos sonhos que desenhavam um cenário sem limites.

À boca pequena nos corredores e nas assembleias, no inflamado da hora falava-se em luta armada. Era um discurso que me amedrontava. Você participava de tudo com mais entrosamento na política. Eu me sentia boba e deslocada. Tudo deveria ser por outros caminhos. Mas quais? Minha perplexidade era tamanha que me paralisava. Talvez hoje eu continue estranha, tão estranha como eu me sentia naquela época, quando um grito surdo ecoava dentro de mim num labirinto de muitos desesperos. Não, não por aí! Mas por onde então?  Hoje as respostas estão mais próximas de mim. O repertório de vida ampliado me oferece argumentos. Certo tipo de organização apazigua meus pensamentos, mesmo que o mundo externo ainda esteja em contínuas guerras, lutas e desejos, tudo em movimento. 

Hoje, amiga, continuamos em posições diferentes diante da política. E guardamos ainda com prudência nossa distância ideológica, essa que afasta as pessoas, que cria vales profundos de discordância, de críticas e julgamentos inócuos. Isso não nos separou.

Ao contrário, nossos diálogos se enchem de família que cresce nos filhos e netos e se enchem ainda em afinidades na busca infinda pelo conhecimento, nos ideais de educação, nos valores que poderiam construir aquele mundo que um dia sonhamos e ainda guardamos (guardamos?) escondido (protegido?) do burburinho à nossa volta.

Uma frase por aí diz que os amigos detêm a nossa história. É verdade. Você, amiga, seria a única pessoa com quem eu teria que estar naquele momento. No cinema revivi tudo com lentes hiperbólicas. E confirmei minha amizade por você em falas de afeto e de coração, de respeito. Sensação boa de reconhecimento e de intimidade. Por essa incrível parceria que se faz longa, agradeço. Você detém parte importante da história de minha vida.

www.agonzalez.com.br             

Partilhar

3 comentários:

suzana padovano disse...

Oi Ana:

Bonito depoimento, cheio de afeto, lembranças e sensações passadas.

Beijo

Suzana

seramigo disse...

Depois do texto magnífico seu, Ana Maria, ler o depoimento de sua amiga foi um mergulho no tempo chamando todas as lembranças, expectativas, lembranças e confrontando com nossa "sabedoria" (será?) de hoje. Valeu!
wilson-seramigo.

Ana González disse...

Suzana e Wilson, obrigada pelos comentários e pela leitura, amigos. Quanto á "sabedoria", sei não, Wlson. Mas, acho estranho demais eventos de minha vida ter virado história...rsrs... Bjs