quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TÊTE-À-TÊTE >> Fernanda Pinho

Outro dia me deparei na internet com o vídeo de Jeremiah. Um cara criativo que, aos doze anos, gravou uma VHS para que ele mesmo pudesse assistir no futuro. Nessa filmagem, ele propunha um diálogo entre o Jeremiah de doze anos com o Jeremiah versão 2012, com 32. Confesso. Senti uma pontada de inveja por não ter tido a mesma ideia, e quase gravei uma vídeo para minha versão anciã. Mas, sem querer me gabar, a inveja passou rápido. Quem precisa de VHS quando se tem uma memória excelente? Posso imaginar exatamente como seria minha conversa com minha versão 12 anos...

- Oi, então você sou eu no futuro?
- Sim, sou você.
- E agora eu uso óculos???
- Há muitos anos. Pode se preparar. Daqui a pouco você vai começar a ter dificuldade em enxergar o que os professores escrevem no quadro e a partir de então nunca nos separaremos de um par de óculos.
- Credo. Já chegou dando notícia ruim. O que você me conta de bom?
- Depende do que você chame de bom, Nanda.
- Nanda? Ainda me chamam de Nanda?
- Chamam. E agora chamam de Ferdi também. Apelido que você ganhou na faculdade.
- Faculdade? Então eu fiz Direito? Sou juíza? Ai, não acredito. Isso é o que eu chamo de bom...
- É... na verdade, não foi bem assim. Mudamos de ideia.
- “Mudamos” inclui quem, fofa? Estou muito segura de que quero ser juíza.
- Você quer ser juíza porque acha chique usar toga e bater o martelo para as pessoas fazerem silêncio. Mas eu preciso te dizer uma coisa: isso não é critério para escolher profissão. Daqui a pouco você irá identificar suas aptidões.
- Quais aptidões?
- Para escrever, por exemplo.
- Ai, meu Deus, já estou até vendo onde isso vai parar. Pode falar a verdade. Estou preparada. O que a gente faz da vida?
- Jornalismo.
- Era o que eu temia. Então você desistiu do Direito para fazer Jornalismo. Nossa, você é muito esperta, hein?
- E você é muito irônica para uma menina de apenas 12 anos. Mas saiba que estamos felizes, temos um trabalho legal, escrevemos sobre coisas interessantes.
- Aposto que a Lili fez Direito.
- Não, ela também desistiu. Fizemos jornalismo juntas.
- Nós ainda somos amigas?
- Claro! Aliás, eu continuo tendo esses mesmos amigos que você conquistou. E mais um punhado de outros. Tenho maior orgulho disso, sabe? Sabemos fazer e manter bons amigos.
- Parabéns, gordinha!
- Gordinha? Quer apanhar, menina?
- É, vamos combinar que você está, digamos, mais encorpada.
- E vamos combinar que a culpa foi sua, que sempre foi indignada com sua magreleza e passou anos tentando “adquirir formas”, como você dizia. Parabéns, você venceu.
- Mas não era para ter levando tão a sério...
- Podemos mudar de assunto?
- Tá. Me conta da família. Papai, mamãe, Paula...
- Estão todos bem, dentro do possível.
- Ainda brigo muito com a Paula? Ela ainda fica enchendo o saco querendo brincar?
- Claro que não. Ela é uma adulta. Tem quase 24 anos. Fisioterapeuta...
- Minha irmãzinha é fisioterapeuta. Ai, sou uma idosa, sinto minhas articulações doerem...
- Por falar nisso.. continuamos hipocondríacas, medrosas, inseguras, paranoicas e usando toda nossa imaginação para cometer atos de autossabotagem.
- Ai, controle-se. Eu sou apenas uma menina. Não me jogue isso na cara. Fale mais das pessoas. E a vó?
- Se foi.
- Se foi pra onde?
- Para o céu. Ai, não chora. Olha, também aconteceram coisas boas. Nossa família está muito maior. Você não tem ideia do tanto de criança que nasceu.
- Sério? Mais primos?
- Primos e filhos dos nossos primos. A última que nasceu foi a Fiorella.
- Filha de quem?
- Do Renzo?
- O Renzo casou?
- Sim, há anos.
- Com quem?
- Com a Dafne. Aliás, a Dafne é prima do Osvaldo.
- Quem é Osvaldo?
- Seu marido.
- Marido???? Então eu não me casei com o Márcio da quinta série?
- Claro que não.
- Mas eu jurava que ia casar com esse menino!
- Você ficariam espantadíssima se eu listasse com quantos meninos você achou que se casaria depois disso.
- Espero que você tenha tido, pelo menos, a decência de casar na data que eu sonhei. Um sábado de setembro, às vésperas do meu aniversário de 21 anos.
- É. Foi num sábado de setembro. Mas às vésperas do nosso aniversário de 29 anos.
- Vinte e nove???? Você é devagar, hein, moça?
- Você que era precipitada de demais...
- E aí? Já temos filho? Sabemos cozinhar? Conseguimos ser práticas e racionais para resolver problemas?
- Calma, que nós crescemos, mas nem tanto. Mas mudar para o Chile foi importante nessa evolução.
- Chile??? Nossa, estou ficando confusa. Acho que não quero saber mais nada.
- Mas gostou de como estamos?
- Reconheço que, no geral, gostei sim. Tenho um marido lindo (se não for lindo eu te mato), trabalho fazendo o que eu gosto, não tenho mais prova de matemática nem trabalho de biologia. Posso dizer que minha vida está perfeita!
- Perfeita? Eu não usaria esse termo. Mas estamos felizes.
- É possível ser feliz sem ter uma vida perfeita?
- É possível e é necessário. Essa é a lição que vem depois das lições de matemática e biologia. Aguarde....



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4 comentários:

silvia tibo disse...

Humm... Ja estou a imaginar como seria o meu encontro comigo mesma, alguns aninhos mais jovem... Muito bom acordar com um texto gostoso assim... Beijos.

Sá Luz disse...

ADOREI, Ferdi!
Confesso, senti inveja também por não ter tido a ideia de fazer o video aos 12 anos, olha só, poderia fazer um a cada 12 anos e esse ano seria ano de atualização. Arrasada!
Mas o dialogo ficou incrível! É muita boa memória, heim. Senti uma invejinha e vontade de fazer igual também (ai, que coisa feia, Samantha!), mas não tenho a memória tão boa. =P

Ana González disse...

É, Fernanda, seu texto é lindo e altamente inspirador!!!!!!! também tenho vontade de ver se minha memória me ajuda. No meu caso, como sou mais velha, posso brincar com as várias fases.. rs... qual é mesmo a mais bem lembrada, a que ficou? Bjss Obrigada.

Vivian Loreti disse...

Ótima ideia essa do videotape. Pena que não tive essa ideia... e também não tenho memória tão boa quanto a sua, provavelmente em alguns meses já esqueci essa ideia maravilhosa. Muito bom o seu blog e o texto. Estou seguindo. Bjão!