domingo, 11 de novembro de 2012

VIAGENS MUSICAIS >> Whisner Fraga

A caminhonete F-1000 era para isso mesmo e, em dois anos, já havia rodado cem mil quilômetros. Eu costumava ir com meu pai para as fazendas de Mato Grosso e, principalmente, Goiás, que ele gerenciava havia meia década. Íamos em três, se contarmos o patrão. Eram viagens longas, de seis horas, para Goiatuba e de dezessete ou mais para Barra do Garças. Eu não me importava, pois nada era mais empolgante do que a companhia dos velhos.

É claro que não me lembro do que falavam durante o trajeto, mas sei que não contavam com  assunto para tanto minuto, de maneira que tinham de dar um jeito de espantar o sono. Nada mais hipnotizante do que o ruído de um motor diesel ao longo daqueles quilômetros. Assim, eles escolhiam suas fitas cassetes e seguiam cantarolando asfalto afora. Se eu afirmar que me recordo das músicas que tocavam, estarei sendo leviano, mas, no caso de meu pai, penso que poderia ser muito bem um Nat King Cole ou alguma banda cubana. Havia também a música sertaneja, evidentemente.

A conversa girava ao redor de trabalho, piadas e amenidades. Nunca me esqueci do patrão justificando os nomes das cidades: Capinópolis, a cidade do capim, Jardinópolis, a cidade dos jardins, Rondonópolis, a cidade dos Rondons e assim por diante. Eu ria, mas o pensamento continuava no córrego e na vara de pescar, com a qual eu tentaria obstinadamente fisgar algum lambari. No meio do caminho, parávamos em algum posto, bebíamos uma coca-cola, tirávamos a água do joelho, esticávamos as pernas e assim seguíamos. A última parada era na venda de uma vila a cinquenta quilômetros da fazenda: o patrão queria comprar balas para os filhos dos caseiros.

Aprendi a gostar de dirigir, sobretudo em rodovias. Há um ritual que precede a viagem: a escolha das canções que me acompanharão. Quando o trajeto é longo, começo sempre com MPB: Francis Hime, Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Marisa Monte, Gilberto Gil e por aí vamos. Já perto do destino, para espantar o sono, para enganar o desgaste do corpo, prefiro algo mais pesado, um rock clássico: Led Zeppelin, Black Sabbath, AC/DC, Scorpions e bandas do gênero. Hoje é praticamente este o momento que dedico à música.

Em casa, eu tinha o hábito de colocar algo mais erudito: árias, sinfonias, óperas, mas ultimamente venho evitando Acho que tenho trabalhado demais e a música atrapalha. Um Beethoven é tão imponente que eu não consigo fazer nada quando começo a escutá-lo. O mesmo ocorre com Mozart e outros compositores do mesmo calibre. A cabine de um veículo passou a ser o meu refúgio, é ali que eu insiro um pen drive no cd player e navego no tempo, volto a Minas Gerais, onde uma criança se deliciava com as aventuras na estrada, ansiando pelo seu momento de motorista.

Partilhar

Um comentário:

Zoraya disse...

Estava com saudades de suas crônicas-memórias! Tomara que sua filha aprenda a gostar de música boa da mesma forma que você e tenha maravilhosas lembranças para contar também.