quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PERFUME DE PADARIA >> Mariana Scherma

De todos os cheiros do mundo, o de pós-banho é um dos meus preferidos. É fresco, é de limpeza, é um cheiro lindo. O maior problema é que a indústria dos cosméticos acabou com a minha alegria e confundiu totalmente meu olfato depois que inventou perfume, sabonete, hidratante, xampu e cia. com cheiros de sobremesa. Aí vai minha chateação: todo dia quando eu entro no banheiro da academia me sinto numa padaria, no exato momento em que uma fornada de pão doce sabor baunilha acaba de sair...

Gostar ou não de um certo aroma é uma coisa muito particular, eu sei. Mas juro que não entendo qual é a graça de sair do banho cheirando tal qual uma musse de chocolate. Sorte de quem usa esse tipo de cosmético é que as formigas não se enganam assim tão fácil. Já pensou o perigo?! Até entendo que esses produtos devam fazer sucesso num spa onde todo mundo quer perder uns quilinhos (quilões?), mas no dia a dia, sei lá, não enjoa? Minha rinite chata e implicante pra perfumes doces, que me faz sair todo santo dia espirrando e com os olhos lacrimejando do banheiro da academia, me obriga a sentir saudade dos cheiros tradicionais de cosméticos, que ainda existem, mas devem ficar lá nas prateleiras, ignorados pelas apreciadoras de cosméticos-sobremesa. Vai ver esse é um dos motivos que me faz cogitar entrar, fingindo um descuido, no banheiro masculino. Desculpem ser tão intrusa, homens do peitoral definido e dos braços fortes, é tudo em nome da maravilha de respirar pelo nariz ;)

E é impressionante como essa indústria da beleza/gula se especializa... Morango com champanhe (champanhe? Sério? Eu só sinto o cheiro de morango nadando no leite condensado), pera (imagino um ET chegando ao nosso planeta, sentindo o aroma de um condicionador de pera e, depois, comendo uma pera. Ele vai se sentir lesado: são dois cheiros completamente diferentes) e maçã-verde, então? Outro caso de enganação de paladar: não tem nada a ver com a fruta. Tem também a baunilha (a inimiga mais mortal da minha rinite), musse de maracujá (lotada de açúcar, eu diria...). Já vi até creme hidratante de capuccino! Eu sou dessas que enjoa de tudo o que é doce demais. Nunca fui até o fim de uma barra de chocolate ou lata de leite condensado, acho que a vida precisa de um azedinho.

Mas essa nuvem de baunilha e frutas vermelhas que invade os banheiros é meio o fim dos tempos, só pode. Por ora, eu só agradeço o fato de que ainda ninguém quer sair do banheiro cheirando a cebola frita na manteiga. Sei lá, ia me dar fome, ainda mais depois da academia. Já parou pra pensar o que aconteceria se Perfume de Mulher fosse gravado agora, nessa época de cheiros de sobremesa e “frutas”? Eu já. Aquela cena linda da dança de tango viraria quase uma comédia quando o personagem do Al Pacino dissesse a atriz algo como: “seu perfume é de bolo floresta negra”. Depois, no final, para a professora do colégio: “sabonete de bolinho de chuva, hein?!”. 

Espero do fundo do coração (e das minhas narinas) que essa moda não atinja os homens. Vai ser triste ter o cheiro fresquinho de um cabelo masculino recém-lavado substituído por um de calda de caramelo. Um aroma bem bom por sinal, admito, mas não na cabeça de um cara lindo. Imagine só se esse sujeito ainda for do tipo que pega no pé. Cheirando a caramelo, vai enjoar mais fácil.


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2 comentários:

profaisa disse...

Parabéns pelas crônicas de todo o site.

Aproveito para divulgar minha editora e nosso concurso de crônicas.

www.areditora.com.br

Até mais!

Zoraya disse...

Sem chances, Mariana, é melhor você ir se preparando para o futuro nao muito distante, em que todos disfarçaremos nossos cheiros naturais em fragrâncias anti-naturais, assim como disfarçamos nossa carência com compras desmedidas nos shoppings. Mas compartilho sua angústia, tenho saudades do cheiro puro e simples de limpeza, principalmente nos homens. Cebola frita na manteiga? eca