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ACIDENTES >> Kika Coutinho

Acidentes acontecem. Na marginal Pinheiros, então, todos os dias, muitos. Alguns com vítimas, outros saem ilesos.

Acidentes também acontecem no banho, no piso molhado, um escorregão ali e pronto, está caracterizado o acidente.

Porém, se tirarmos esses típicos, as motos e os retrovisores estilhaçados, há acidentes positivos, cujas marcas não são arranhões ou capôs amassados. Aconteceu comigo.

Estávamos perto do nossa aniversário de casamento e, numa noite qualquer, naquele silêncio escuro e calmo que só os velhos casais compactuam, ele me perguntou: “O que você vai querer de presente?”. Eu não tive dúvida. Sabia a única coisa que me faltava nessa vida. Para além das calças jeans, dos sapatos de salto e dos relógios, ainda depois das duas filhas, das flores e dos brigadeiros, apenas uma coisa me faltava nessa vida e eu anunciei, num sussurro: “Quero outro filho.” Ele, meu doce marido, ali tornou-se amargo: “Você está louca? A gente não dorme, não vive, não para um minuto com essas duas crianças! Fora os gastos, a escola, a babá, as gripes, os médicos. Você está louca,” ele concluiu, dando espaço ao novo silêncio de uma noite fria. Eu não respondi. Aninhei-me nele e, muito cansada de toda a verdade que ele dissera, dormi.

Passaram-se meses, e ele permanecia irredutível. Eu não tocava tanto no assunto porque o tema não era urgente. Quando falava, dizia do futuro, daqui a dois, quem sabe três anos. Eu queria um temporão. Ele desconversava, pedia para passar o sal e comentava da chuva que ia chegar. Assim se seguiram os dias no verdadeiro caos de uma casa com duas crianças. Vez ou outra – apenas quando tudo estava bem –  um soltava alguma coisa, como que sonhando alto, dava algumas borrifadas nos quadros que eu pintara na minha cabeça, desde muito jovem: “Pense nos natais, com a casa com muitas crianças.” Ele se mantinha impassível: “Natal é uma vez por ano.” Eu aquietava. Passavam-se alguns dias e, como um velho borrifador incontrolável, eu voltava: “Pense nos jantares, a mesa sempre cheia”. Ele já não me respondia tanto, parece que desistira de enfrentar meu borrifador de sonhos e ficava calado, mas eu sabia que aquilo era só uma forma de encerrar o assunto. Estranhamente, eu não me importava. Guardava calada, dentro de mim, a sensação forte, firme e latente de que a minha família, essa que eu construía com ele todos os dias, minuto a minuto, a cada noite em claro, a cada beijinho no machucado, a cada maria-chiquinha feita, a cada colherada de feijão, a cada livrinho lido, a cada banho dado, essa família que eu tanto amava, ainda não estava completa, e eu sabia disso, como só mesmo as mães podem saber.

Eis então que, como uma moto que passa no corredor de carros com a certeza de que vai sair ilesa, resolvemos tirar uma fina daquele retrovisor. Foi um erro de dias, um cálculo meio atrapalhado, "Acho que não tem perigo", "Certeza?", "Não, certeza não, mas não sei, deixa pra lá então", ou, "Acho que passa, dá seta aí, vamos?" E os carros afunilando a via de passagem...

A vida é mesmo uma ventania, não é? A gente pensa que controla tudo, os livros na estante divididos por cores, a família toda vacinada contra a gripe, o guarda-chuva sempre a postos, carnes no congelador e pizzinhas para uma emergência, Novalgina e Tylenol sempre disponíveis e eis que uma ventania muda tudo de lugar. Tira a ordem, o prumo, tira a chatice também e nos mostra que a brisa pode ser bem agradável.

Foi numa manhã de calor que eu vi o meu terceiro teste de farmácia dar positivo.

Entre lágrimas e sorrisos, eu tentava segurar firme a minha mão que tremia, para ter certeza de que aquilo era um sinal de mais. E era.

Foi com susto, com pavor e amor que ele recebeu a notícia. Mas ver a barriga crescer, assistir o milagre que se forma dentro de mim vai dissolvendo o medo, e dando lugar para a alegria.

Comemoremos, gritemos, cantemos incessantemente. Vamos ter outro bebê. E nunca fomos tão felizes.


OBS. Agradecimento especial ao Eduardo que, gentilmente, me cedeu espaço para que eu fosse justa com o terceiro filho, já que as outras duas tiveram texto de anúncio da chegada aqui. A preocupação em não fazer diferença com o caçula, aliada ao meu TOC, fizeram com que eu pedisse ao Eduardo uma participação isolada no Crônica do Dia, para esse importante anúncio.

Comentários

Kika, por mim você engravidava toda semana só pra fazer participação especial no Crônica do Dia. :) Muita saúde pra você e pro seu novo bebê.
fernanda disse…
Concordo com o Eduardo! Pena que é uma crônica isolada. Mas a notícia é tão boa que você está perdoada. Parabéns!
silvia tibo disse…
Que coisa linda, Kika!
Parabens pelo filho!
E obrigada por compartilhar conosco a chegada dele!
Um abraco...
Zoraya disse…
Kika, que saudades dos seus textos! Puxa, mil alegrias para toda essa família linda! E vê se dá um jeitinho, entre meia-noite e um e meia-noite e três, de escrever pra nós! Beijos e tudo de muito bom pra vocês!
Viviane disse…
Amei a notícia, a chegada é sempre motivo de intensa comemoração.
Pena que a observação fez meu coração desacelerar. Não, a Kika não voltou para 'crônica do dia', sim, eu continuo órfã...rs
Mas poxa, dê notícias pelo 'embuchada', deixe-nos viver e acomapnhar também esta gestação! Poxa... n´so acompanhamos das duas gurias (Ó a chantagem..rs).
Tá eu sei que com três, será difícil... mas pô... tenta! Combinado???

Parabéns Kikaaaaaaaaaaaa


www.mamaeatomica.blogspot.com
Debora Bottcher disse…
Ana, querida,
Que coragem!!! :) Parabéns pelo novo bebê. Muita saúde pra ele e muita energia pra vcs. :)
Beijo e saudade.

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