quinta-feira, 29 de novembro de 2012

FIM DE ANO COM OBSTÁCULOS... E PASSAS >> Mariana Scherma

Duas aventuras nada bem-vindas na minha vida: supermercado e shopping no fim do ano. São os dois lugares em que só vou porque preciso, mais ou menos a mesma coisa que a ida periódica ao médico. Talvez eu até prefira o médico, se tiver certeza de que ele não vai me deixar esperando duas horas na mesma sala que uma porção de revistas Caras mostrando as “notícias” de um ano que já passou faz tempo.

Moro numa cidade quente e (suspiros de tristeza...) sem praia. Ou seja: adivinha onde todo mundo vai passar o fim de semana! Lógico que no shopping, ainda não sei se pra comprar os benditos presentes ou se pra curtir o ar condicionado. Mas eles estão lá: sábado na hora do almoço, sábado à tarde e domingo a partir da hora que acordam, fazendo uma caminhada normal virar A Interminável Caminhada Com Obstáculos. Ãham. Andar num shopping lotado, com as pessoas paralisadas pelas vitrines (acho até uma cena meio de zumbis) é bem pior que uma corrida com obstáculos. O obstáculo tá lá parado. As pessoas, não: elas andam e de repente param na sua frente, não veem o seu pé e lá vai um pisão. Sério, tenta olhar uma vitrine com atenção: você vai precisar desviar de uma meia dúzia de gente (ou bem mais) zanzando sem destino.

Minha birra com o Natal é que as pessoas ficam enlouquecidas e querem mostrar aos amigos e parentes todo o carinho que economizaram nos outros meses comprando uma lembrancinha (o 13º salário tem ônus, olha só!). Aí não dá outra: o shopping vira o cenário perfeito pra um filme de terror. Ou guerra. Ou luta porque é inevitável você acabar apanhando da fulana que anda com 32 sacolas nas duas mãos mais um sorvete de casquinha e acha que ocupa o espaço de uma pessoa só. Já sugeri em casa de comemorarmos o Natal em janeiro, quando os shoppings se tornam menos impossíveis e ainda dão descontos. Minha mãe riu da minha cara. Ela me acha a maior pão-dura do universo.

Supermercado pra mim tem efeito parecido, talvez até pior. Inesquecível (no péssimo sentido) foi quando eu estava esperando minha vez na sessão de frios e tinha um sujeito escolhendo bacon. Toda vez que ele pedia à atendente pra mostrar um novo pedaço do coitado do porco, eu me esforçava pra não demonstrar reação. Só tinha um vidro separando ele do bacon, por que a pobre da moça tinha que mostrar o bacon na mão? “É bacon, meu senhor, qualquer um desses pedaços vai entupir suas artérias do mesmo jeito”, uma frase que consegui engolir e que prova que se trabalhasse no lugar da atendente não duraria um dia no emprego. É só ver um supermercado lotado que minha mãe e eu nos revezamos: tática de guerra mesmo, "você pega as frutas, eu fico nos frios, passo nas carnes e quem terminar antes corre pra fila no caixa". Combinado. Valendo!

Já esqueci a ideia de inferno pegando fogo, pra mim inferno é o supermercado na véspera de Natal e Ano-Novo. A impressão que dá é que as pessoas deixam pra comer só nessa época e aí a coisa fica meio Saramago em Ensaio Sobre A Cegueira. Sou a favor de ceias magrinhas, sem essa loucura da carne de porco, das castanhas, das sobremesas de chantilly e do arroz amarelo com passas (que, se fosse gostoso de verdade, substituiria o arroz branquinho o ano todo, né?). É uma refeição num país tropical, caramba.

Nessa semana, um novo shopping será inaugurado aqui na cidade onde moro. Não tô soltando fogos de artifício por conta disso, mas me deu um minialívio. Enquanto todo mundo vai correndo checar as novidades, eu vou ao velho shopping mesmo. Com muito foco, sou capaz de comprar os presentes em uma hora (é, eu não sou o tipo que distribui lembrancinhas pra toda lista de contato, só para os mais queridos mesmo). A minha sorte é que quem cuida da ceia é minha mãe – e nenhum supermercado abarrotado é capaz de tirar dela a paixão por fazer compras (taí uma característica nada genética). Como ela sabe da minha falta de paciência, minha tarefa é só dizer o que eu quero comer. Vou pedir o pavê de sempre. E esperar do fundo do coração pra que ela desencane das passas no arroz. Um milagre de Natal, quem sabe?





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3 comentários:

Carla Dias disse...

Essa época do ano desperta o pior em nós, antes do dito (ou apenas esperado)melhor. Também fujo dos shoppings e supermercados, e não apenas nessa época. Não sei o que acontece, mas por aqui parece sempre época de Natal nesses lugares.

silvia tibo disse...

Concordo plenamente...

Zoraya disse...

Hahaha, muito boa Mariana! Nao tenha birra do Natal nao, que é uma Festa linda, de profundíssimos significados. Tenha birra do que o pessoal faz do Natal (e eu, como vc, fujo léguas de shoppings e mercados, Cruz Credo). Obrigada pelas risadas e que o arroz amarelo esteja em falta!