quarta-feira, 14 de novembro de 2012

JARDIM E IMPROVISO >> Carla Dias >>



Ele que não sabe da missa a metade, do verso o avesso, do destrambelho a consequência. Está fadado ao desnudar impropérios, ao desvendar ilusões sem a menor intenção de fazê-lo. Mas é assim que as coisas funcionam.  A catarse vem sem que estejamos esperando por ela, por isso chega carregada de importância.

Rabisque aí: “caminha por um jardim desconhecido, passos lentos, cadenciados”, e depois de apontado o cenário, digno de um livro de banca de jornal criado para liberar suspiros de mulheres que engolem suspiros em público, complemente: “pisando em flores, sem perceber a beleza delas.”

Mas não pensem que ele pisa em flores por mero desinteresse por elas ou por pura indiferença. Ele simplesmente não as enxerga, porque seu olhar se agarra ao adiante, ao que lhe desperta uma agonia incessante. Aponte aí: “suspira fundo, suspiro de homem que nunca suspira em público, suas sobrancelhas arqueiam em sinal de preocupação.”

Ontem à noite ele se preocupava com não chegar atrasado à reunião importante, com a necessidade de consertar a porta da garagem e comprar o presente de aniversário da irmã. Inquietava-lhe o programa da tevê, o personagem do livro, o vizinho que costuma chorar alto, de madrugada. Sabe que ele perdeu a esposa há pouco tempo e que não consegue se acostumar à solidão a essa altura da vida. Lamenta por ele, enquanto tenta dormir.

Inclua aí: “para, de repente, começa a gritar desesperadamente, caindo de joelhos, baixando a cabeça, depois levantando, olhos grudados no céu, como se fizesse uma prece. É para ser um momento clichê capaz de emocionar, então, ele chora.”

“Homem não chora e nem dá o braço a torcer”, foi o que lhe ensinou o pai distante, que não perdia a oportunidade de catequizá-lo sobre como devia se comportar um homem. Seguisse os conselhos do pai, certamente teria uma vida bem diferente da que leva. Seria um homem casado, com mulher para judiar e filhos para ignorar, e uma coleção impecável de vinhos para matar de inveja os amigos por conveniência. Pode não ser o que seu pai sonhou para ele, mas certamente é quem lhe cabe ser, com todas as imperfeições e qualidades.

Coloca aí: “agarra as flores e as amassa com as mãos, misturando seus gêneros e cores, caprichar na intensidade, no tom desesperador.” Seu dentro abriga tempestades. Desde uns dias, ele vem remoendo o desejo pungente de abandonar sua história. Não apenas de desatar o nó da gravata, jogar tudo ao alto, mudar de planeta. Ele quer começar do início possível, do rascunho de si, da cultivação de novos rumos, da autopermissão para sentir-se feliz.

Acrescente aí: “levanta-se e sai correndo, desatando o nó da gravada e lançando-a ao longe, tirando a camisa e soltando-a ao vento, a ideia é de ele estar se despindo de si mesmo, enquanto pisa nas flores.”.

Havia um belo jardim em sua casa, quando era menino. Sua mãe, uma mulher com o olhar mais triste que ele já conheceu, cuidava dele sozinha. Não queria que ninguém tocasse nas flores que cultivava ali. Ele estava sempre por perto, sentado, fazendo a lição da escola ou brincando com seus carrinhos. Lembra-se da figura da mãe, magérrima, curvada sobre as flores, cuidando-as com um carinho imenso. Era somente ali que ele percebia nela um naco de alegria.

Escreve aí: “para de repente e fica imóvel. Bate um vento forte e faz com que as pétalas das flores esvoacem e o cerquem. Ele se deslumbra com as flores, ele enxerga o jardim.” Em um dia de lição de pai empenhado em construir filho a sua imagem e semelhança, ele foi colocado no meio das flores do jardim da casa. A ordem era para que ele não saísse de lá até que o pai permitisse. Ele não podia se sentar ou se alimentar, nem beber água.

Em determinado momento, já sem forças para tentar agradar ao pai, que se esbaldava em seus vinhos na biblioteca da casa, o menino começou a chorar. A mãe, que não tirou o olhar triste do menino nem por um momento, choramingava, enquanto era confortada pelo abraço da empregada. Depois de horas, a fome e a sede lhe cutucando, o menino fez aquilo que qualquer criança faria em tal posição, gritou pela mãe, um grito miúdo, de tão fraco que ele estava. A mãe, ao dar o primeiro em direção ao filho, é impedida pelo pai, que desfere a ela e ao filho, aos berros, as piores ofensas.

Anote aí: “ergue os braços, como se fosse colher as flores do ar, sorri, lágrimas ainda escorrendo pelas faces. Passar a sensação de que finalmente se libertou de seus fantasmas.” Ao escutar as ofensas, de ver o pai, mais uma vez, agredir sua mãe, o menino grita com mais força e começa a destruir o jardim, olhos fechados, mãos agarrando o que desse, chutando o que fosse. A raiva do menino é tão intensa que até mesmo seu pai para observá-lo, estarrecido com a rapidez com que ele destrói o jardim.

Daquele dia em diante, o menino não mais se submeteu aos desmandos do pai, passou a não desejar o afeto que fosse vindo dele. Aprendeu a ignorar a existência de um ser humano e conviver com a ausência de outro, porque sua mãe simplesmente sucumbiu, passou meses de cama, até partir de vez, o jardim em ruínas.

Não é apenas a hora marcada, o calendário vigente, a correria de empresário que o incomodam. Lembra-se, desde sempre, que seu desejo era o de existir com a leveza que lhe foi negada na infância. É fato que não quis um tostão da herança do pai, deixando sua parte para as irmãs da nova família dele. Não quer ser regido por nada do que aquele homem lhe ofereceu. Por isso é preciso ser honesto consigo mesmo, a ponto de encarar as mudanças necessárias para alcançar a si.

Despede-se desse momento mudando o rumo, o roteiro da sua vida. Porque ele pode saber muito pouco sobre quase nada, mas é claro que ainda há o que ser feito, antes de se permitir a liberdade de ser. Antes de se permitir sair daquele jardim onde foi cravada a sua infância.

Conclua aí: “sorri o sorriso de moço que nunca soube sorrir levezas. É perceptível que ele acaba de compreender que nada é mais importante do que a possibilidade de improvisar com a vida. Olha para o chão, os pés cobertos por flores. Quando olhar para o horizonte, é o menino, não o homem, que o contempla.”

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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