TANTO FAZ >> Carla Dias


Retrai-se. Enclausura-se em desculpas.

O mundo caótico embaça os seus sentidos, arregala seus medos, fortalece suas fugas. Pés descalços, apoiados na mureta aquecida pelo sol de verão. Escalda-se apenas para criar espaço para o desejar — livre do pudor condicional — o abrigo no frio, o timbre da chuva ao açoitar as janelas, o entusiasmo do  vento.

Trafega com frequência no cenário das contravenções sensoriais.

O avesso cultivado é cúmplice do seu direito a caminhar por um universo de dúvidas mancomunadas com a certeza absoluta de que as incertezas são amparadas pela totalidade. Elas moram nos vincos, nas rugas, nas fissuras. Brotam nos arredores dos fatos, envergando-os até se aninhar no colo dos floreios.

Acredita que há floreio que embeleza, mas quase sempre inflama em culpa, rótulo, solidão.

Envolve-se com alardes, dos diminutos aos escandalizadores. Reconhece a recusa pulsando na face corada dos afetos imaginários, nas infinidades controladas, no amortecimento da dor. Deseja a liberdade, mas logo a esquece em um canto, incapaz. Apieda-se das futilidades que acumula sem que se dê conta, até elas se derramarem, grotescas, na sua realidade dividida.

Divide-se em partes desiguais. Há quando escolhe partir, mas a necessidade exige que permaneça ancorada nas suas questões. Por vezes, enxerga-se como vilã de si mesma, arruinando a possível felicidade ao saciá-la no gargalo. Nota quando a coreografia da sua existência se deita ao lado do futuro, apenas para lhe cutucar a paciência.

Prefere assim: diferente, insinuante, profundamente agoniante ao raso sentir. Entretanto, há dias em que arrasta o corpo na inexpressividade, como se o cansaço vivesse debaixo da sua pele, furtando-lhe a vitalidade.

Prefere a imensidão do elusivo à segurança que congrega vazios. Rebela-se, em cada dia, contra si mesma. Tem consciência de que não há quem limite, fragilize, apequene mais do que o próprio autor dos temores que o habitam.

Há o que a sustenta em levezas e quedas livres. Delicadas percepções fisgadas entre uma xícara de chá e uma crise de nervos. Avassaladoras decisões que ganham força no alento da aceitação de que não há como mudar o que lateja, pulsa o bom ou o ruim, porque tanto faz.

Tanto faz se dói ou alivia.

 Imagem: Alter Ego © Marion Adnams | Foto © Derby Museums CC BY-SA 4.0 

 

carladias.com


Comentários

Alfonsina disse…
Wow, que texto, denso e delicado!! Acho que preciso ler e reler para entender todas as sutilezas deste retrato que é ao mesmo tempo forte e sutil.
sergio geia disse…
Carla, Carlinha, a cada texto seu sinto que você encontra centenas que se identificam com a narrativa, e que estão na mesma situação da personagem. Só você.
Zoraya Cesar disse…
Carla Dias e seus personagens tão perdidos nos mundos - o de fora e o de dentro - se debatendo para sobreviver com o mínimo de movimento, para ver se dói menos. E eu, de novo, lendo no domingo ao anoitecer... ai ai ai

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