NA SALA DE ESTAR >> Carla Dias


O movimento silencia em seu corpo. Desliga-se com as vozes que desaparecem no corredor, entre declarações de afeto e revelação de insatisfações. Seus dedos se agarram ao carpete mais antigo que ele. Lembra-se que ali se deitou muitas vezes para dormir, ainda menino, assistindo desenhos para entretenimento de quem tem de crescer para deixar a sala de estar.

Nasceu com a seriedade que os desenhos não conseguem minar. Permitiu que tentassem. Insistiu que o fizessem. Dele nunca levaram um sorriso ou conquistaram seu apreço por personagem favorito.

Queria experimentar a coragem dos que se movimentam em direção ao imprevisível. Eles têm o olhar desafiador que antecede à largada. Pena que ele se modifica durante o caminho. Já viu o de alguns embaçarem. Aprecia quando aquele olhar insiste em mostrar aos seus que ainda há chance de avistar a linha de chegada.

Olhar também comete enganos, insiste no erro, desvia dos fatos.

É apenas um covarde, enfiado em seu pijama, ancorando sua tristeza na sala de estar. A tristeza que sempre esteve ali, quando assistia aos desenhos que não despertavam nele interesse, mas tinham de ser assistidos por alguém. Não suportava a ideia de deixar seus protagonistas e coadjuvantes sozinhos na sala. Fingiu que lhes fazia companhia. Fez o mesmo com as pessoas: estava sempre ali, mas ausente.

Inveja os que conseguem quebrar as regras cultivadas entre intenções equivocadas e ações desiludidas. Que, mesmo abrasados pelas lamentações justificadas, levantam-se de suas poltronas, atravessam a sala de estar e abrem a porta. Eles se retiram do próprio cárcere, tomados por urgências ruidosas. Ainda assim, acreditam nas oportunidades e aventuras que os aguardam nem sabem onde. Nunca consideram que eles podem ser desagradáveis.

O lugar dele é a sala. Conhece bem o tapete sob seus pés, acompanhou o surgimento de cada rasgo nas cortinas, alimentou-se de muitas gerações de hortaliças criadas no seu quintal. Assistiu a muitas partidas, esquecimentos, faltas.

Na tevê, os desenhos continuam a fazer sua parte. Sente pena deles por não poderem sair de casa. Tem certeza de que amanhã descobrirá quais dos personagens é o seu favorito.

Imagem © Peter H. por Pixabay

carladias.com

Comentários

sergio geia disse…
Que melancolia de personagem, Carla. Dá vontade de gritar: saia desse pijama, homem! Venha viver!
Zoraya Cesar disse…
Putz, olha eu de novo caindo na armadilha de ler Carla Dias num domingo à tarde. Eu nao aprendo! A melancolia se esparramando diante de meus olhos e o texto hipnótico da Princesa das Palavras me prendendo até o fim. Maravilha de texto!
Albir disse…
Sufocante. Me senti prisioneiro do pijama.

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