ÀS ESCÂNCARAS >> Carla Dias


Já não me rendo aos olhares habituados a domesticar. Ainda que me falte direção, permaneço fora do círculo. 

Eduque-se com o que digo, insistia em repetir, seja quem evita a discórdia, o interesse indigesto. Seja dócil, breve no discurso, elegante no gesto. Seja de acordo com o que digo, porque é o certo. Todo resto é bobagem criada para nublar o justo.

Os olhares me engolem, famintos do que não tenho mais a oferecer. 

Eduquei-me no que proferiu. Deitei-me aos seus pés e escutei histórias sobre verdades irrefutáveis. Acreditei nas regras impostas e aprendi as preces entregues. Alimentei-me das comidas adequadas, contive meus impulsos, banhei-me no tempo cronometrado. Impedi que minha mente perambulasse na companhia de desejos autorais.

Seja silenciosa no caminhar pelos cômodos. Serena no acomodar em seu dia as tarefas a executar. Seja paciente durante as esperas. Seja quem acalma, tranquiliza. Seja aquela que renega a fúria, a adepta da resignação.

Seus olhares me enfeitam com punição. Há um reverberante desacerto em mim, uma falha indiscreta. Dizem que não fui como deveria ter sido, que me faltou o viço da dedicação em sê-lo. 

Seja a bondade de ceder e se comprometer. Seja a beleza da obediência, da entrega e da confiança plena. 

Meu corpo se nega a ser como me construíram com incontáveis comandos: seja! Em algum ponto, minha mente despertou e se abriu, enxergou mais do que os olhos embaçados que agora me vigiam enquanto revidam minha autoconsciência com escárnio.

O timbre da minha voz deixou de saber o seja. Meu caminhar decidiu por outra cadência. Nem o meu silêncio consegue se manter como antes. Meu valor de ontem foi minado em um grito indecente, desencadeado pela dor do outro que ecoou em mim, provocando um gemido de ruidoso tormento. Foi assim que esse sentimento, até então por mim desconhecido, expandiu-se no meu dentro.

Perdi a graça ao arregalar os olhos para o desespero.

Perdi a paciência ao correr em círculos impulsionada por desentender o que me acometia.

Perdi o fôlego ao sufocar a liberdade que me consumia.

Seus olhares me condenam à inequação que me sequestra. Eu me rendo sem relutar. Reconheço o cansaço de quem foi o seja de outrem até há pouco. O seja imposto por quem vive apenas a imaginar o que outros experimentam na carne, na realidade que se farta do imprevisível. Quem educava outros para que se tornassem ausentes das camadas da vida, porque ter o direito de fazê-lo era confortável, suficiente.

Viver é confuso. Há dias em que é feio, sujo, remendado, um apanhado de consternações e intranquilidades. Há dias em que viver faz sentido ao atormentar, desmoralizar, exigir, quebrar silêncios com as suas sinfonias de desigualdades e tropeços de ilusões.   

Há dias em que viver é uma ousadia ferrenha.

Que assim o hoje seja.

Imagem © Metropolitan Museum of Art | La Frileuse © Jean Antoine Houdon 

carladias.com


Comentários

Nadia Coldebella disse…
Que texto magnífico! De todos os seus, esse foi aquele q gritou ao meu coração!

A cada passo dado para romper esse casulo da conformidade, a cada grito que se desprende da garganta, a cada não, segue junto o estranhamento, o deslocamento e, as vezes, a culpa...

Mas são escolhas, não é? Viver quieto dentro da concha ou romper o casulo, ganhar asas e conhecer o mundo? Conhecimento dói, talvez por isso tantas e tantos mantem-se nos limites das formas que is moldaram!

Vc é simplesmente maravilhosa, Carla, e sem entrelinhas!

Big bjo 👽
sergio geia disse…
Seus textos sempre me levam à reflexão; a tal história da crônica-terapia. Romper esse casulo não é nada fácil. Certa vez me perguntei: eu sou o autor de minha história? Como a resposta foi não, tratei de sê-lo. E digo: não é fácil. Às vezes a gente se perde no caminho e a nossa história passa a ser contada por outros. Show de bola, Carla! Como sempre.
Zoraya Cesar disse…
Carla, mais um texto clássico de arrancamento das superfícies e exposição nua e lírica das profundezas da alma e da vida. Além de escrever como uma Princesa das Palavras, vc nos tira do chão com tanta suavidade q nem sabemos dizer quando vc nos colocou de cabeça pra baixo a olhar o que as aparências escondem. uau.
Albir disse…
É a um tempo susto por se identificar no texto, e consolo em saber que não se está sozinho.

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