quarta-feira, 11 de maio de 2011

PROCURA-SE >> Carla Dias >>


I am searching
I am not alone
I am searching
Please give me some
INXS

Procura-se, mas não com urgência, para que, ao ser encontrado, esteja descansado das correrias da vida. E para que, amansada a alma, profetize metáforas ao se agarrar à volúpia da poesia.

Procurar requer uma paciência que, às vezes, sequer sabemos ter. Portanto, procurar é também descobrir, desvendar, despir. É perguntar a si mesmo “e se?” e ter a resposta inquiridora na ponta da língua do sentimento: por que não?

O ser humano se alimenta de buscas, e procura em cada tempo, em cada acontecimento, em cada gesto, procura no singular a compreensão que sempre chega plural. Porque nem tudo é branco no preto, amarelo no vermelho, verde no marrom. Tem dias em que se trata de um verdadeiro arco-íris. Há outros em que as cores desmaiam, perdem o fôlego, mas apesar de desbotadas, feito roupas velhas penduradas no varal, ainda nos vestem, aquecem.

Procura-se a solidão desmistificada, compreendida como puro desejo de ficar em casa em quase todos os finais de semana do ano, ou falar pouco e escutar mais. E que os que vivem a solidão do dentro, a que está além das paredes de casa, possam ser livres na solidão das salas de estar, entre um bate-papo e outro.

Tem quem procure a si no olho do furacão. Tem quem procure o outro nas ruas da cidade, naquele que não é, na constelação de desacertos que vêm com a experiência de viver a vida mais do que ignorar suas saliências, sua fragrância, suas farpas, a constelação de surpresas que cabe nela.

Tem quem sequer procura, perde-se de tudo, de todos, de si, e cambaleia entre uma existência estática e as vitrines de vidas que gostaria de viver, mas que não são suas. São realidades nas quais jamais se esbaldará.

Procura-se, então, o silêncio que ampara as orações para servir de cenário para declarações de amor, e espaços vazios para neles se plantar cadeiras de balanço. Planícies para as fugas, abraços para curar ausência, estrelas cadentes para descortinar pedidos secretos. E uma porção de pessoas encontrando, uma nas outras, a companhia que por tanto tempo vinham procurando.

Procura-se o encontrar.



carladias.com

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Essa foi pra mim, né, Carla? :)

fernanda disse...

Adoro essa música, mas me lembrou outra das "nossas": "I still haven't found what I'm looking for..."

Marilza disse...

É Carla, procuramos e nem sempre sabemos o quê. Vamos tão tão longe e muitas vezes encontramos ali, ao nosso lado.
Eu procuro e sempre encontro nesse blog,crônicas belíssimas como a sua...

Thayná disse...

Adorei essa crônica, muito mesmo!
Seu blog vai começar a ser meu 'blog de cabeceira' agora ;DD gostei muito!

Aqui tem o link do meu, se puder passar lá: http://pensamentosforadarazao.blogspot.com/

albir disse...

Carla,
procura-se encontrar a procura. Mas seu texto ajuda.

Carla Dias disse...

Eduardo... Né :)

Fernanda... Essa música é demais mesmo, assim como a sua. I still haven’t found what I’m looking for é catártica.

Marilza... Pois é. Duro é quando o ‘logo ali, ao lado’ se torna meio indecifrável. E se a gente se distrai com a espera, dança... Ou canta. Que bom que o Crônica está entre os seus encontros.

Thayná... Ah, que o Crônica merece ser blog de cabeceira :)
E visitei o seu blog, li alguns textos. Gostei muito da colagem e criação literária que lá habitam. Parabéns!

Albir... Opa! Meus textos estão aqui pra isso :)