Pular para o conteúdo principal

COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Nunca cheguei a ser uma péssima aluna, mas também nunca estive entre os melhores da sala.

Durante todo o período da escola, cheguei até a ficar de recuperação uma vez, mas nada que não desse para recuperar com uma provinha extra. Mas era raro fechar as matérias com nota máxima.

Hoje em dia, na faculdade, a história se repete. Ainda não reprovei em nenhuma matéria, mas também não fecho os semestres com muitos “SS”. Sempre fico na média.

Ser uma aluna sempre mediana nunca me incomodou muito, mas confesso ter uma pontinha de inveja das pessoas que não precisam passar nem um minuto na frente de um livro estudando para ir muito bem em uma prova. Por que eu tenho que me matar de estudar e mesmo assim às vezes ir mal, enquanto os outros se dão bem sem nem estudar?

Fiquei me fazendo essa pergunta por um bom tempo até descobrir que eu sou disléxica. Muito se explicou, mas a dificuldade continuou. Diminuiu depois dos 6 anos que eu passei na fonoaudióloga, mas, como se sabe, dislexia não tem cura, então o que se pode fazer é aprender a conviver com ela.

Olhando para trás, acredito que eu tenha lidado até bem com essa minha dificuldade. Nem sempre foi assim, mas hoje já consigo achar, inclusive, que se deveria dar mais valor às coisas que não se sabe. Nem sempre saber algo é vantajoso.

Por exemplo, aquele dia que o professor me chamou ao quadro e, mesmo eu pedindo para não ir, ele me fez resolver um problema de matemática na frente da turma toda, eu queria não saber que eu pagaria um mico por não saber nem por onde começar.

Ou aquele dia em que eu cheguei, depois de 5 meses de viagem, morrendo de vontade de encontrar aquela pessoa especial. Eu queria não saber que aquela ao lado dele era sua namorada.

Ou as várias vezes em que minha mãe me disse para não fazer algo e mesmo assim eu fiz. Eu queria não saber que ela tinha razão em me dizer para não fazer.

Ou aquela festa em que eu vi aquele casal de amigos chegando juntos, de mãos dadas, aparentemente muito felizes, eu queria não saber que enquanto ela era louca por ele, ele já não estava mais feliz ao lado dela.

Ou então essa sexta no hospital. Eu queria não saber que aquele sorriso que ele me deu seria o último sorriso dele para mim...

Bom, sabendo das coisas ou não, a única certeza que eu posso ter é de que, por mais difícil que seja, a vida tem que continuar...

Comentários

albir disse…
Clara,
por isso é importante prestar atenção no sorriso, né?. Pode ser o último.
É, Clara, a ignorância pode ser uma bênção.
Anônimo disse…
Oi,
gosto muito das suas crônicas sempre as leio.É muito mais importante errar do q acertar, pois quando erramos contruimos algo novo.
por Hope* disse…
Clara,
sentir vai além do saber...
E você deve ser alguem que sente em demasia! Se não fosse, não causaria arrepios!
Muito bem escrito, muito bem sentido!
Bjoo!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …