segunda-feira, 16 de maio de 2011

TEMPOS >> Albir José Inácio da Silva

A noção de tempo aconteceu num aniversário. Lembranças anteriores não cuidam disso. Naquela tarde, porém, de pé frente à mesa que lhe ficava na altura dos olhos, viu duas garrafas e um bolo furado no meio. E soube que estava na Terra há cinco anos.

Não que avaliasse o que significavam cinco anos, mas era a primeira medida de tempo de que participava. Teve a certeza de ser especial porque só pessoas especiais tinham festas.

Muitas vezes cinco se passaram e ele tem tido outras festas, contado outros tempos e de vez em quando ainda se sente especial, embora não identifique logo a especialidade. Vai recolhendo uns elogios na esperança de que contenham mais que generosidade. Teve festas que não mereceu e merecimentos não festejados.

Viu muitas contagens chegarem ao fim, pessoas especiais que se interromperam rápido demais. Perdia um pouco a especialidade cada vez que partiam os que o consideravam especial. Teve certeza de perder mais que a pessoa. Perdia-se.

Resulta tudo isso na confusa obrigação de não se fazer tão bom para não causar sofrimento demais aos que ficam. E assim não levar pedaços tão grandes das pessoas quando tiver contado o seu tempo.

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9 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Albir,
Gosto de ter essa noção do tempo, sem o selo da eternidade, por acreditar que ela nos credencia a ver o mundo sob outro ângulo. Essa passagem pela vida, que não se conta em números, numa linguagem matemática, é a soma do encantamento e do assombro que nos mantém vivos e dispostos a um recomeço, apesar de... Às vezes, algumas pessoas que nos são caras partem encantadas pelo brilho das estrelas e, por incrível que pareça, a ausência desses afetos nos possibilita uma vida melhor... É à força do contraditório a nos desafiar, a testar os nossos limites... É quando crescemos! Passamos a olhar o outro com mais cuidado, amor, carinho, generosidade, tolerância...
Saudades de ler seus textos!

Debora Bottcher disse...

Valha-me... Que beleza de narrativa... Não vai para o livro? Merecia... :)
Super beijo.

Marilza disse...

Também gostei do seu 'doce' contar do tempo...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que belezura poética, Albir!

fernanda disse...

Lindo, Albir, lindo!

Thayná disse...

É aquela Crônica que faz a pessoa para pra refletir, adorei muito! Os dois ultimos parágrafos estão lindos, se é que isso é uma palavra que posso usar, 'doce' acho que chega a ser mais adequada!

albir disse...

Julieta,
é sempre um prazer ler seus comentários. Venha sempre.

Debora,
obrigado pela generosidade.
Beijo.

Marilza,
doce é você. Obrigado.

Edu,
isso é porque ando frequentando muito o Pátio.

Obrigado, Fernanda, obrigado!


Thayná
obrigado pela presença. Volte sempre!

Carla Dias disse...

Albir, que jeito poético de dizer o tempo...

albir disse...

Beijo, Carla. Obrigado.