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O DIA DO MISTÉRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Se o leitor tiver uma quedinha pelo absurdo — assim como eu —, imagine aí se metade da população deste planeta, por algum tipo de determinação genética, não pudesse fazer algo que, para a outra metade, é o maior motivo de felicidade.

Eu fico aqui imaginando, por exemplo, se metade dos seres humanos tivesse alguma disfunção auricular — ou neurológica — que lhe impedisse de ouvir música. Quase TRÊS BILHÕES E MEIO de pessoas que poderiam assistir a um vídeo da Elis Regina sorrindo e cantando "Chovendo na Roseira", mas que não conseguiriam ouvir a melodia, apenas escutariam o texto como se estivesse sendo recitado. Já cogitaram a cara de perplexidade dessa gente ao olhar para a Elis e para as pessoas capazes de escutá-la? Já imaginaram o que é presenciar um momento tão mágico — e até sentir os efeitos indiretos de tanta beleza, pela reação dos que são capazes de percebê-lo —, mas não saber exatamente do que se trata?



O leitor vai perguntar se eu bebi alguma coisa de ontem para hoje, se a minha terapeuta está viajando, se não tenho mais o que fazer ou se estou sem inspiração para a crônica do domingo. Não, sim, sim, não, mas...

Pergunte às mulheres por volta dos 35 anos qual o momento mais feliz da vida delas, e muitas, mas muitas mesmo, irão lhe responder que foi o nascimento do primeiro filho, ou do segundo, ou do terceiro, ou de todos eles. (E, por favor, não faça a mesma pergunta a homens de 35 anos: a resposta pode ser decepcionante.) Por algum motivo misterioso, a verdadeira guerra do parto — com direito a gritos, mutilações e sangue — está entre os momentos mais felizes da vida daquelas pessoas a que chamamos "mães".

E essa suprema alegria, por um capricho dos deuses — ou da genética — está restrita a no máximo três bilhões e meio de pessoas deste planeta. Ou seja, eu e mais alguns bilhões de homens estamos privados dessa satisfação, somos incapazes de ouvir Elis Regina cantando "Chovendo na Roseira".

Agora me diga, caro leitor, o que um "surdo para música" poderia falar dessa obra-prima do Tom Jobim? O que se pode afirmar sobre aquilo que não se conhece? O que se pode dizer do que para si é puro mistério? O que pode um cronista — homem — declarar sobre a maternidade?

Hoje é o Dia das Mães, e eu não sei o que é ser mãe. Hoje é o Dia do Mistério, e eu tenho que me calar — reverente e agradecido — diante desse segredo. Embora eu tenha a desconfiança, cá dentro de mim, de que minha mãe falando comigo é tão bonito quanto a Elis chovendo na roseira.


Comentários

Fernanda Coelho disse…
Maravilhosa crônica, Eduardo. Você tem uma capacidade tal que, mesmo o seu silêncio, é cheio de significados. Você soube transmitir, em um texto curto e muito gostoso de ler, um carinho e um respeito que não se encontra facilmente. A última frase, aliás, valeu pelo texto todo.

Um abraço
Fernanda
aencantadoradepalavras.blogspot.com
La Lunna... disse…
Que coisa mais LINDA (e sincera!) de se dizer no dia das mães! E olha que já cheguei naquele ponto de achar o que se escreve nestas datas comemorativas tudo lugar-comum...!

Suas crônicas estão ficando cada vez mais minuciosas na delicadeza de descrever os sentimentos! Parabéns (mesmo que vc não seja mãe...rs)
Debora Bottcher disse…
Ah! Eduardo, vc tem tanta sensibilidade que nem se percebe que não seja mãe. :))) Valha-me... Eu também não o sou e aí talvez também nunca conheça desse mistério a que vc se refere, esse milagre... Mas, como vc diz, talvez seja possível experimentar parte disso na voz de nossas mães, esse porto seguro que nos protege e ama incondicionalmente... Belo e delicado esse texto... Beijo pra vc.
Fernanda Arruda disse…
Ah, que coisa mais linda Edu!
Bem, apesar de ser mulher, eu ainda não sei o que é ser mãe, então assim como pra você, pra mim também este é o Dia do Mistério. Eu não sei o que é ser mãe, mas sei o quanto é maravilhoso ser filha da minha mãe, que é a pessoa mais especial do mundo, do meu mundo.
Um beijo.
Marilza disse…
Como sempre, lindo texto....Mistérios da vida aliados à sensibilidade de poucos
Kika disse…
Ai Eduardo, que texto lindo, delicado, poético.
Eu nunca tinha pensado sob essa ótica, e olha que penso a beça no assunto "maternidade".
Também sou surda para algumas belas canções... ainda bem que você me abriu os ouvidos, se é que se pode dizer isso.
beijos!
Ana
fernanda disse…
É um mistério, sim, que você quase consegue decifrar com essa analogia tão poética e delicada. Só alguém vai gostar mais desse texto que eu: minha mãe. Vou chamá-la pra ler agora :)
Kathia Albuquerque disse…
Não só pelos ouvidos, mas também ser grata pelos olhos que leêm e se deliciam com toda beleza "melodiosa" dessa linda declaração de amor às mães. Parabéns pelo blog.
Kathia Albuquerque
albir disse…
Que beleza, Edu! Ajuda a metade não-mãe a perceber o mistério.
Ana F. disse…
Gente, onde eu estava que não tinha visto ainda esse blog lindo? Surda à "Chovendo na Roseira", só pode... Beijo!
Fernanda [Coelho], acredita que quase concluo o texto antes da última frase? Foi você que me soprou a inspiração? :)

La Lunna, quer dizer que você está aí do outro lado, acompanhando meu progresso em delicadezas? Bom saber. ;)

Valha-me, digo eu, Debora! Será que sou mãe e não sei. :)

Fernanda [Arruda], você me fez lembrar os versos de um amigo: "é que a minha mãe / e todas as mães / formam uma constelação do bem".

"Como sempre", Marilza? Assim eu fico envergonhado. :)

Kika, pra você ver como há ainda muitas óticas possíveis para os muitos maravilhosos textos sobre maternidade que ainda virão de você. :)

Fernanda, mamãe gostou? :)

Grato, Khatia. Venha sempre. :)

Ih, Albir, minha metade professor ainda deu o ar da graça, foi? :)

Ana, você deveria estar em outra órbita. Bem-vinda a essa atmosfera. :)

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