quarta-feira, 18 de maio de 2011

LENNY >> Carla Dias >>

Em tempos de acrobacias tecnológicas, avanços enlouquecidos, descobertas emblemáticas, às vezes eu me perco, confesso. Não sou moderna o suficiente para pilotar celular que tenha mais do que as funções fazer e receber ligações, chegando ao máximo de me entender com Bluetooth para não perder as fotos bacanérrimas que tirei dos meus sobrinhos. Eu sei... Celular não é máquina fotográfica, não o meu! Porque deve haver algo assim perdido nesse armário de invenções que é o mundo, e que eu desconheço completamente, mas ok! Desconhecer também é uma arte.

Não que eu viva com a cabeça num buraco, feito avestruz. Eu me enveredo pelos copy/paste, download, plug-in, e assisto CSI, então vejo aquele monte de computadores sensacionais, utilizados por cientistas fantásticos, em busca de botar os bandidos na cadeia. Mas gosto mesmo quando esse parque de diversões, que dá vazão aos sonhos e descobertas do ser humano, me conta uma história que, apesar de assessorada pelas crias, remete aos criadores. Porque não há máquina que não seja programada, que não contenha o enter.

Tem esse filme que, infelizmente, não acho em DVD para assistir novamente. Ele foi lançado em 1995, e a história foi criada por James Cameron, também co-roteirista da trama. Estranhos Prazeres (Strange Days) se passa em Los Angeles, focando nos últimos dias de 1999, e conta com direção de Kathryn Bigelow.

No filme, Ralph Fiennes é Lenny Nero, um ex-policial que comercializa a droga do momento: discos digitais contendo ondas cerebrais de pessoas passando por experiências pelas quais pessoas comuns jamais passariam. Sendo assim, o usuário pode ter a sensação de ser um bandido em um roubo, sem se tornar um criminoso, ou o amante, sem trair sua esposa.


Tudo corria muito bem com Lenny, até ele receber um disco com informações que sugerem o caos, o que faz com que ele se volte aos seus instintos de policial. A partir daí, ele tem de lidar com um roqueiro barra pesada que mantém um relacionamento bagunçado com a ex-namorada dele, e por quem Lenny ainda é apaixonado.

Estranhos Prazeres chegou antes de filmes como Matrix, por exemplo, e não deixa nada a dever aos Blockbusters. Trata-se de um filme fantástico que não decolou não sei por quê. Ele tem uma trama consistente e contemporânea, uma fotografia intrigante, os efeitos especiais são ideais, principalmente nos momentos em que mostram os usuários utilizando a droga tecnológica. E além de tudo isso, as atuações são dignas de premiações. Ralph Fiennes, Juliette Lewis, Angela Basset, Vincent D’Onofrio, Michael Wincott e Tom Sizemore estão ótimos em seus devidos papéis.

A tecnologia me agrada, mas até ali, não adiante. Ainda prefiro as experiências que posso viver por mim mesma, e dispenso os robôs com “quase perfeitas expressões faciais”. Aliás, eles me dão frio na espinha, confesso. Deve ser impressionante conectar-se a um programa e ter a sensação perfeita de ir à lua, mas sem sair da Terra. Porém, pensando dessa forma, posso imaginar os seres humanos conectados e inertes, títeres alimentados com sentimentos que, eventualmente, vão se tornar itens de colecionador.

Desculpem, estou no meu momento Sci-Fi.

Mas é que me dei conta de que, às vezes, desejamos tanto um abraço que pagaríamos por um dos discos do Lenny. E que faríamos isso todas as vezes que a falta se apresentasse, até deixarmos de perceber que outro ser humano nos daria isso de graça, e ainda nos levaria ao cinema. A grande pegadinha das descobertas, não apenas das tecnológicas, é que o ser humano se vicia sem pestanejar. A gente se acostuma a apenas imaginar que abriu a janela, saiu para um passeio, pisou na grama, sentiu o sol no corpo.

Nesse meu momento Sci-Fi, eu confesso, faria uma encomenda ao Lenny. Pegaria um pedaço da vida de outro para enfeitar a minha. Mas eu sei que, sem o cuidado devido, se é que isso existe, num caso desses, acabaria sentindo falta de mim.



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7 comentários:

Silvana Nazareth disse...

Muito interessante, Carla.
Me deixou bem curiosa sobre o filme.
E confesso que há dias em que experimentar dessa droga seria praticamente irresistível..

fernanda disse...

Fiquei curiosa para ver o filme, Carla. Vou tentar baixar (leia-se: pedir minha irmã pra baixar pra mim, porque eis aqui uma pessoa com preguiça para aprender essas coisas todas...rs). Bjos!

Carla Dias disse...

Silvana... Espero que assista mesmo ao filme, porque é dos bons. Você pode até assistir e não gostar, mas, definitivamente, ele nos faz pensar nos vícios que cultivamos, diariamente, e que nos impedem de experimentar a vida na sua plenitude.

Fernanda... Depois que a sua irmã operar o milagre do download e você assistir ao filme, quero que me conte o que achou. Gosto muito do Ralph Fiennes neste filme, porque é um personagem bem diferente do que ele normalmente interpreta. E ele está muito bem neste papel. Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Também gosto demais desse filme, Carla. E sua crônica o tornou ainda melhor.

Carla Dias disse...

Ah, Eduardo... Que bom que você conhece esse filme. Ele é muito interessante mesmo. Bom demais. Bjs!

albir disse...

Carla,
sempre fico atento às suas dicas de arte. Mas devo dizer que essas reflexões sobre o filme são outra obra de arte.

Carla Dias disse...

Albir... Obrigada : )