segunda-feira, 23 de maio de 2011

EU QUASE ME ESQUECI >> Kika Coutinho

Eu estava sentada no escritório da minha casa, ao telefone com uma funcionária da empresa para a qual trabalho, discutindo um ponto importantíssimo de negócio. A conversa estava quente, não concordávamos. A moça, na Argentina, me explicava em portunhol que deveria ser assim, que esse era o procedimento desde sempre, enquanto eu, e outras pessoas que participávamos do call, repreendíamos, alegando que isso não era argumento, a carreira de muitos funcionários estava em jogo, os números não nos favoreciam, as políticas não estavam coerentes... Quando, de repente, a babá da minha filha bate na porta.

Ao me ver ao telefone, a moça fala: “Ai, desculpe, você está ocupada...”. Eu, preocupada que tivesse acontecido algo com a minha filhota, cubro o telefone com as mãos e digo: “Pode falar, o que houve?”.
Fico surpreendida quando ela afirma, sem graça: “É que a minha mãe me ligou, minha cunhada acabou de ter neném, lá na Bahia...”. Fico um instante em silêncio. E o que eu tenho a ver com isso? Mas que raios que esse bebê tem que ela interrompe um troço importante desses? Fiquei indignada e sem ação. Bebês não nascem todos os dias, afinal? Olho de novo pra ela, que tem as mãos juntas, nervosa, aperta o indicador da mão esquerda com os dedos da direita. Subo um pouco a vista e noto que os olhos estão cheios d'água. Aí, só aí me dou conta... Meu Deus, nasceu?!

Lembro-me, num instante, de quando ela contou da cunhada grávida, da dificuldade de estar em SP longe da família, sem convênio médico, sem ninguém. A moça não aguentou ficar muito tempo aqui e, já com um barrigão de 7 meses, voltou para a Bahia para aninhar-se nos braços da mãe e da sogra, esquecendo-se do que era a roça, o chão árido, os hospitais precários... A menina ia se chamar Natalie. Ou seria Verônica?

Peço um minuto no telefone. Minha interlocutora argentina não entende, mas eu insisto, tiro o telefone da orelha em definitivo, e vou dar atenção à nova tia: “Que legal, Nete! Que coisa boa! E como está a sua cunhada? Senta aqui, me conte!”. Ela senta, um misto de vergonha e alívio, querendo compartilhar o que alegrava a sua vida. Enquanto enxuga uma lagriminha teimosa, começa a me contar: "A bolsa estourou, o neném é grande, elas estão felizes"...

Eu perdi o restante da conversa telefônica. Certamente teria de me desculpar e poderia ter posto qualquer coisa importante a perder. Mas não importava. Nada era tão importante assim: uma criança nascera na Bahia, uma pequena menina estava, agora, abrindo seus olhos para a vida e enxergando o mundo...

Foi numa sexta-feira chuvosa que a pequena Natalie me tirou do trilho da chatice e da burocracia e me lembrou, de verdade, quem eu sou e o que importa nesse mundo... E eu quase ia me esquecendo.

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3 comentários:

Silvana Nazareth disse...

Realmente Kika, esta crônica nos remete ao essencial tantas vezes esquecido...
Uma bela historia pra se começar a semana!
Ótima semana e obrigada pela lembrança.

fernanda disse...

Ai Kika, que bom que o mundo ainda tem gente que se lembra =)

CMEISAL disse...

Que linda que ficou essa história! Se não fosse tão linda pelo conteúdo e pela lição, seria pela competência com as palavras, muito bem elaboradas. Parabéns por tudo, minha querida. bjs