domingo, 1 de maio de 2011

DITO E FEITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Há pouco mais de três anos, uma amiga, durante uma caminhada na Avenida Raul Lopes, à beira do rio Poti, em Teresina, me contou que havia adotado a seguinte resolução de ano-novo: seguir a ordem.

—Como assim? — perguntei, querendo saber até onde ia a compreensão que minha amiga tinha da palavra "ordem".

— Viver de maneira organizada — respondeu minha amiga. — Respeitar a ordem no trânsito, nem pensar em furar qualquer tipo de fila, obedecer todas as hierarquias, guardar as coisas em seus devidos lugares.

Caramba, minha amiga tinha uma noção bem ampla de "ordem". E pensei lá comigo: missão difícil.

Pois não é que, três anos depois, eu me coloquei numa missão semelhante ao adotar como resolução de ano-novo: cumprir minha palavra.

— Como assim? — perguntará o leitor, querendo saber até onde vai a compreensão que tenho da "palavra".

— Executar aquilo que falo — respondo. — Fazer cumprir os ditados "palavra de rei não volta atrás", "palavra dada, palavra empenhada". Tomar cada palavra minha, falada ou escrita, como uma promessa a ser cumprida. Dar minha palavra de honra. Ser um homem de palavra.

Mal comuniquei minha resolução pela primeira vez, a meu grupo terapêutico, e eu já estava sujeito à minha missão. Verdade que não pensei que ia ser tão difícil, afinal sempre fui de poucas palavras, então não haveria muito a cumprir. Grande engano! Quando comecei a prestar atenção nas palavras que eu dizia, percebi que eram muitas, e boa parte delas descumpridas. Desde então, um "te ligo semana que vem" já não é mais o mesmo para mim. Quando a semana que vem chega e eu ainda não liguei para o tal fulano, aquilo fica martelando em meu juízo feito um grilo falante.

Muitas palavras a gente emite na empolgação do verão. Quando chega a hora de cumpri-las, muitas vezes já é inverno, e bate aquela preguiça, aquela vontade de ficar quietinho, enroladinho, em casa.

Mas a coisa começa a ficar difícil mesmo, de verdade, quando se trata das palavras que dirigimos apenas a nós mesmos. Porque quando publicamos nossa palavra, os outros nos ajudam a cumpri-la, nos pegando pela palavra, cobrando sua execução. Já quando somos as únicas testemunhas do que falamos, ou quando o outro que nos ouviu falar não é uma pessoa próxima, aí somos nós e a nossa consciência, a sós, e é muito fácil fazer de conta que não prometemos nada, ou então darmos uma desculpa qualquer a nós mesmos.

Vendo tantas palavras próprias serem descumpridas, tem aumentando meu cuidado em pesar minhas palavras, em medi-las antes de pronunciá-las ou escrevê-las. De vez em quando, entretanto, alguma escapa impulsivamente, e lá vou eu atrás dela, correndo, resfolegando, tentando cumpri-la. Sou feito um velho avô tentando acompanhar o lépido netinho.

Nesses poucos meses procurando estar mais atento a minhas palavras, procurando cumpri-las, me lamentando por promessas descumpridas e comemorando juramentos concretizados, tenho percebido mais claramente que a gente colhe aquilo que planta, e que a pá que lavra essa semeadura é a palavra.

Semana passada, comentando com alguém sobre o Crônica do Dia, escrevi as seguintes palavras: "escrevo aos domingos". Hoje, acordei cedinho para dar aula, trabalhei com meus alunos por toda a manhã, depois preparei e almocei um bom macarrão e tirei um longo cochilo. Acordei, coloquei um doce na boca e já ia me preparando para assistir a um joguinho de basquete quando aquelas palavras me vieram à mente: "escrevo aos domingos". Ainda tentei argumentar comigo mesmo que um dominguinho só sem escrever não faria falta, que eu também precisava descansar um pouco, blá, blá, blá... Mas a resolução de ano-novo venceu. Coloquei a Terceira Margem do Rio para tocar ("Hora da palavra / Quando não se diz nada / Fora da palavra / Quando mais dentro aflora / Tora da palavra / Rio, pau enorme, nosso pai"), sentei ao computador e vim aqui cumprir minha palavra.

Dito e feito.




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6 comentários:

albir disse...

Edu,
sorte dos leitores que você cumpra com tanto esmero esse compromisso dominical.

Marilza disse...

É Edu, forte esse seu propósito. Torço para que consiga cumprí-lo. Aliás, bom seria se todos nós mantívessemos nossa palavra. Ainda bem q vc está cumprindo com a sua, senão como ficaríamos nós, leitores assiduos desse blog?

fernanda disse...

Seria um ótimo exercício para mim que sou impulsiva, falo pelos cotovelos e não sou nada orgulhosa. Volto atrás e descumpro promessas com a maior facilidade do mundo. E colocar as coisas dessa forma, escrita, me deu até uma certa vergonha de mim...rs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pois é, Albir, promessa de uns, sorte de outros. :)

Continue torcendo, Marilza, porque o trem é difícil. :)

Fernanda, melhor "com vergonha" que sem-vergonha. :)

Carla Dias disse...

Obrigada por dizer e fazer, assim ganhamos uma crônica muito interessante, que me fez refletir sobre as minhas próprias palavras livres, soltas.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, um dia minhas palavras chegarão nesse estágio de serem livres e soltas, sem deixarem de ser cumpridas. :)