segunda-feira, 30 de maio de 2011

JUÍZO FINAL >> Albir José Inácio da Silva

Ainda bem que o mundo não acabou no dia marcado porque eu tinha aí umas pendências. Uns malfeitos pra desfazer, uns pecados pra confessar. E até um menino pra assumir, que Zefa vai pular nas tamancas mas não posso ir assim pro julgamento.

Padre Antônio falou que o mundo vai acabar sim, mas não é agora não, faltam alguns anos. Ele faz cara de que sabe quantos mas não diz. Eu também não acredito porque já peguei outras mentiras dele. Ainda mais depois do que fez com aquela moça, antes donzela, que ele inventou que tava com demônio e ela teve de fugir pro Rio de Janeiro.

Pesa na minha consciência uns palmos de terra do Aderso. Verdade que eu cheguei a cerca pra lá depois que as vacas derrubaram, mas foi pra compensar uns prejuízos. Quantas vezes falei pra tirar os animais do meu sítio e ele não escutou. Mas isso é coisa pouca.

Outra pendência que preciso resolver é aquele moleque, o Dão. Eu já nem o contava mais como pecado, tantos anos sem notícia de Esmeralda que tinha sumido pros lados de Minas. Foi minha sogra, que sabe tudo, o que não sabe advinha, que apontou o molecão na rua:

- Olha ali o filho da pouca-vergonha.

Parecia comigo mesmo. Mas o pior veio no domingo, ele me tomou a bênção na saída da missa, na frente de todo mundo.

A culpa foi também de Esmeralda. Andava me deitando uns olhares, eu já casado. Chamei pra ver um cabritinho doente, que ela tinha muita pena de bicho. Entrou no paiol toda sorriso, cheiro e dengo. Verdade que ela não queria, foi meio à força. Mas ela podia ter gritado. Não gritou.

Tudo isso se resolve. Volto a cerca pro lugar, dou uma desculpa, e Aderso ainda vai me agradecer. Uma tapeada na Zefa, um corte de pano, um pó de arroz, registro o menino, ajudo a acabar de criar que ele também já está grande, e pronto. Até o padre safado vai ter que me dar absolvição. Mais difícil é o caso do Silas, aquele cão.

Veio me desfeitear na beira do rio por causa de uma discussão na bodega do Juca, e foi pra dentro d’água com a cabeça rachada. Ninguém sabe, ninguém viu, mas andaram desconfiando na época. O sargento chegou a perguntar onde eu estava naquele dia. O caso acabou como escorregão e afogamento.

Isso eu não confio de confessar pra Padre Antônio, que já não gosta mesmo de mim e eu posso acabar na cadeia. Tenho que pensar melhor. Talvez eu vá pra Minas, um lugarzinho do interior, fico uns dias, confesso com padre de lá, desconhecido. Uma ofertinha, uma penitência, umas ave-marias, e volto pra cá com tudo resolvido.

Só não posso fazer que nem das outras vezes. Fico adiando, adiando, chega de novo o último dia e me pega de calça curta, cheio de pecados e sem absolvição. Já passei da idade de brincar com coisa séria. Esse mundo é perigoso.

Ainda bem que no céu não vai ter cabocla sonsa, vizinho safado nem cabra desaforado. Nada de filho bastardo ou padre sem-vergonha. E não tem a Zefa falando pelos cotovelos. Eu preciso é ir logo pra lá, sabe.

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, ainda bem que o mundo não se acabou pra gente curtir mais um dos seus personagens. :)

Marilza disse...

leitura leve,despretensiosa..
taí...gosto dos seus "causo"...rs

Marisa Nascimento disse...

Albir:
Que delícia de texto!
Se o mundo acabasse, eu só ficaria bem triste se não tivesse tido a chance de conhecer seus escritos. :)

albir disse...

Edu,
e também pra gente poder dizer "Acaba Não, Mundo!"


Marilza,
eles também gostam de você.


Marisa
Os escritos ficam alegres quando você os lê.

Carla Dias disse...

Albir, o mundo não acabou, mas a gente se acaba ao ler os seus textos. Adorei!

albir disse...

Obrigado, Carla. Beijo.