quinta-feira, 25 de março de 2010

PROMESSAS DE MÃE >> Kika Coutinho.

Se ao casarmos nos comprometemos com coisas tão grandiosas como fidelidade e amor eterno àquele estranho que está diante de nós, por que o ritual não se repete para um filho, para uma filha?

Deveríamos. Anotar e falar aos quatro ventos o que queremos e o que acreditamos para essa relação. Eu, devagar, tenho feito a minha lista individual daquilo a que devo comprometer-me todos os dias para com esse pequeno bicho que mama em meu peito. Não é fácil. Porque já me sinto cansada e sem forças, e ela tem apenas alguns meses. Mas é disso que é feita uma relação, não é? De um amor que sobrevive “apesar de”.

Apesar de tudo, prometo que estarei atenta a você, minha filha querida. Apesar dos letreiros luminosos da rua, apesar do barulho infernal da cidade, apesar das inúmeras solicitações do dia-a-dia, eu ainda olharei para você com toda a atenção e o amor que você merece.

Apesar de toda névoa que a vida irá dissipar entre nós, ainda assim irei vasculhar no escuro quem você é, o que te faz feliz e o que te assusta, o que te faz triste e o que te torna alegre ou confiante.

Eu prometo, minha querida, que mesmo quando eu estiver cansada e exausta, irei buscar fundo na memória o quanto te desejei e o quanto tua presença me tornou uma pessoa melhor e mais completa.

Eu prometo que apesar dos teus erros e das tuas malcriações, não esquecerei tua nobreza e tua vontade de acertar. Irei lembrar-me de te elogiar e de te incentivar, ainda que a vida me ocupe de broncas e castigos.

Eu prometo que não jogarei em ti os meus traumas e os meus desejos. Eu prometo que não vou culpar-te pelas minhas escolhas, pelos meus erros e pelas minhas frustrações. Eu quero muito te isentar do que for doloroso da minha maternidade. Isso é possível?

Eu prometo respeitar quem você é, mesmo que seja diferente de tudo o que eu desejei para ti. Eu prometo me preocupar mais contigo do que com os vizinhos, eu prometo que vou ouvir o que você disser mais do que me preocupar com o que os outros dirão.

Eu prometo estar inteira quando estiver contigo, mesmo que não sejam todas as horas do dia.

Eu prometo te enxergar, filha, e ainda que a tua verdade me assuste, não vou fechar meus olhos.

Eu prometo, sobretudo, fazer de mim mesma uma pessoa inteira e feliz, para que você não tenha que arcar com as minhas frustrações ou com o meu mau-humor. Eu não vou jogar em ti o fardo dos meus preconceitos.

Eu prometo que, embora haja obrigações, embora haja responsabilidades e contas a pagar, acharei sempre uma brecha, pequena que seja, para te dar carinhos e beijinhos, para fazer cócegas e risos junto com você, mesmo que o dia esteja chuvoso lá fora.

Eu prometo te tornar livre, mesmo querendo te aprisionar a mim.

E, quando você tiver o seu coração partido e eu não puder colar seus mil pedacinhos, prometo que respeitarei a tua dor e não vou nunca desdenhar ou diminuir o teu enorme sofrimento.

Eu prometo dar atenção aos teus desenhos, à tua pasta de papel de carta, ao penteado das tuas bonecas, à tua agenda e às tuas provas. Serão muitas provas pelas quais teremos de passar, minha filha.

E, por fim, eu prometo amar-te e respeitar-te, todos os dias das nossas vidas – até que a morte nos separe.

www.embuchada.blogspot.com

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7 comentários:

Cristiane disse...

Amém! que coisa mais linda, Ana. Para guardar, para fazer um quadro e colocar na parede, para que ambas não esqueçam e para quando ela crescer também poder fazer o juramento de filha, que é tão árduo - e delicioso - como o de mãe.

Debora Bottcher disse...

Concordo com a Cris: ser mãe é uma tarefa, mas ser filha não é fácil também. :))) Beijo, bonita. Lindo texto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belos votos, Kika!
Que o que Deus uniu, nada possa separar. :)

albir disse...

Prometo que vou ler sempre que uma de vocês escrever sobre a outra.

Eliana disse...

Kika: toda vez que leio seu blog sinto que ser mãe, para vc, é pesado demais. Você já se perguntou por quê? Você está fazendo terapia? Cuidado porque seu bebê deve sentir desde sempre que é quase um fardo. É tão fácil ser mãe quando a gente se entrega totalmente àquele ser que de tanto amor, faz doer nosso peito. Quando a gente se torna mãe, a vida nunca mais é o que era antes. Para melhor. Talvez vc precise enxergar esse outro lado. Pense nisso. E pense rápido antes que esses sentimentos façam mal à sua filhinha. Aproveite e leia a entrevista da Cissa Guimarães na Veja de 1/10/10. Talvez dê para entender melhor o que é sentimento materno mesmo. Numa boa!

Lila disse...

Achei lindo. Me emocionei com o seu texto, Aninha! E não acho que a sua relação com a maternidade tem nada de fardo... sinto uma sinceridade enorme mas também um amor que transborda as palavras.
Saudade de vc, querida! Beijo

Kika disse...

Lila querida,
vê-se que, você sim, me conhece!
:)
Obrigada, um beijo e saudades!