quarta-feira, 15 de junho de 2016

DISTÂNCIA >> Carla Dias >>


É o que acontece quando se deixa de ser o espectador, a pessoa que, ainda que veja o acontecimento ser desfiado em sua presença, consegue manter a distância que oferece a sensação de que não é com ele. É feito filme do qual ele pode se esquecer durante o jantar.

Sente-se incomodado por reconhecer-se incomodado por ter essa distância diminuída, a ponto de ele se sentir íntimo do tema. Como é possível aproximar-se tanto do caos sem pertencer a sua arquitetura?

Duvida de tudo, desde aquele momento, aquela catarse que trouxe ausência pela mão. O que, antes daquele momento, ajudava-o a se acalmar, agora parece ineficiente balsamo. Tanto lhe inquieta como nunca. Há esse ineditismo emocional cerceando a sua sempre tão apurada razão. Essa compreensão atrasada sobre o que importa. Sobre como importar-se.

Aconteceu sem que ele percebesse. Foi de um desejo acanhado de beijar moça que conheceu em uma festa. Amiga da amiga de um amigo. Inteligente, sorriso largo, usuária da ironia para explicitar sua relutância em se sentir à vontade com sua condição de bem-nascida. Ele adorava escutá-la falar, ainda que os assuntos que a apaixonassem lhe soassem quase incompreensíveis. Tivessem nada a ver com quem ele era ou representava.

Deslumbrou-se pela voz aveludada dela a proferir palavras brutais para explicitar zangas, e então sorrir como se não houvesse o que de ruim pudesse lhe roubar a graça. Gostava do som da voz dela, da coreografia dos seus gestos, da conexão que ela tinha com assuntos nos quais ele não se aprofundava.

Havia o mundo dele, onde tudo estava onde deveria estar. Sua vida acontecia a contento, ainda que exigisse grande esforço para que se tornasse o profissional esperado para assumir o lugar do pai na empresa da família.

Havia o mundo dela, aquele que ele não entendia muito bem, tão distante era aquela realidade da que ele vivia. Aquele lugar onde transitavam personagens de histórias que ela contava, às vezes, em lágrimas.

Nunca matou vontade recorrente e silente. Nunca beijou a moça, que andava ocupada com o desejo de mudar o mundo, assim, em um gesto, o certeiro. Porém, consolou a tal, e tantas vezes, que na penúltima exigiu que ela parasse de se embrenhar naquele universo de faltas e precariedades. Ela discursou sobre a boa sorte que os arrebanhara, mas que nunca bateu à porta de muitos. Na última vez, exausto de socorrê-la dos frequentes desapontamentos, das lutas que ela descobria serem vãs, de embalar suas crises, de preocupar-se mais com ela do que com todo o resto, com todos os outros e consigo, desistiu.

Nunca beijou a moça e, durante meses, não assistiu ao seu sorriso escancarado ou conversou sobre importâncias que pertenciam somente a ele e a ela por tê-lo aceitado como confidente. Sentiu saudade, vontade de ligar para escutar sua voz que dizia dolências com uma beleza que ele não entendia como era capaz de brotar durante seus monólogos abençoados pela mais pura melancolia. Durante meses, ele foi exatamente a pessoa que planejara ser.

Então, aconteceu o que o trouxe ao hoje, a essa contemplação.

Ela insistia e ele achava que era doutrinação. Pedia para que ela parasse, que ele não era pessoa ruim, não precisava lidar com aquilo tudo. Não era culpa dele se o mundo era complicado, se alguns não davam certo. Não era culpa dele que as pessoas se machucavam ou tinham necessidades que não podiam suprir.

Não era culpa dele.

Tentar mudar o mundo, agora ele compreende, era o chamado dela. Era a paixão dela. Diminuir a distância entre o conforto que a vida lhe oferecera e a necessidade do outro dava sentido à existência dela. Esse algo que o consome talvez seja essa conclusão à qual ele chega, enquanto a observa sentada naquele banco de praça, pessoas alvoroçadas ao redor dela, ali, sozinha.

Sozinha como ele jamais a imaginara.

É como se ela sorrisse e perguntasse: entendeu agora? Como se ela o pegasse pela mão e o fizesse caminhar, até que aquela distância se revelasse uma péssima desculpa para não se importar.

Reconhece o vestido, presente dele no último aniversário dela que comemoraram juntos. Foram três anos e ela nunca o beijou. Foram três anos e ele nunca foi aonde os sonhos dela estavam. A distância que ele criou entre eles é a mesma que ele reconhece haver entre seu mundo e este que visita agora: famílias vivendo em casas improvisadas, quando não ao relento, dormindo debaixo de marquises. Crianças obrigadas a suportar o que para ele parece insuportável.

A distância de quem se defende da cruel realidade do outro como se ela não existisse.

Era apenas uma amiga de uma amiga de um amigo. Uma moça que ele desejava beijar, desde que a conheceu, mas nunca beijou. Aquela que se tornou sua melhor amiga, a companhia mais desejada, a confidente. Ainda assim, ele foi incapaz de compreender que ela nascera para mudar o mundo. Olhando para ela, a violência estampada em seu corpo; escutando a tristeza escancarada por aqueles que a cercam e berram o que de bom a moça fez por eles. Assim, ele se dá conta, desprovido de dúvidas, de que ela mudou o mundo de muitos, inclusive o dele.

Antes de cair no choro, revirado pela dor de ela não estar mais nesses mundos que o mundo abriga, lembra-se de ela dizer que ele era uma boa pessoa, mas que se negava a aceitar a verdade: a nossa vida não é somente sobre nós mesmos.

Não há volta, depois de aceitarmos tal verdade. A partir daí, importamo-nos com o outro. É assim que o mundo fica melhor, ainda que tentem nos convencer do contrário.

Para ele, essa é uma distância que se dissipou com a ausência dela.


Imagem: Gli amanti in blu © Marc Chagall

carladias.com



Partilhar

Nenhum comentário: