quinta-feira, 16 de junho de 2016

GOTEIRA>>Analu Faria

Um barulinho chato de água gotejando em metal atrapalha minha leitura. Plic-plic-plic. Vou até a pia, fecho um pouco mais a torneira. Dá certo,  por uns trinta segundos. A água volta a gotejar, dessa vez mais devagar. Plic----plic----plic. Tudo bem, tudo bem. Sou um ser humano, um ser racional, aprendi (mais ou menos) a ter paciência, enfim, é só uma goteira, vamos lá: levanto-me de novo, vou até a pia. A torneira já está bem apertada, mas cabe mais um pouquinho de aperto.

Depois de uns dois minutinhos, plic------plic------nada------plic-----------. Saio do sofá mais uma vez. Dessa vez, percebo que já não dá mais para apertar a torneira. E agora? Penso, penso, penso. Algo que abafe o som da goteira? Sim, é isso! Pego um paninho de pia, coloco no lugar onde a água atinge o metal. Dobro bem o tecido, para que o som realmente seja anulado. Funciona. 

Volto ao sofá e ao livro, feliz em constatar o que os economistas tradicionais já sabem há tempos: somos racionais, fazemos escolhas com nosso intelecto, sempre visando à otimização do nosso bem-estar.  Usamos nossa inteligência para resolver problemas. Ah, como é bom ser humana!

Imagina você meu espanto quando percebo que não consigo mais me concentrar na leitura. A goteira havia me tirado do prumo, embolado a linearidade do meu raciocínio e agora eu estava deitada no sofá que eu muito racionalmente havia comprado, com o suor do meu muito racional trabalho, e sentindo que eu não conseguiria racionalizar a importância das goteiras na vida da gente.


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