sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

CARTA A PAPAI >> Paulo Meireles Barguil


Fortaleza, 24 de dezembro de 2015.

Querido Papai,

Sei que o senhor é da época em que escrevia carta para a Miloca usando a gloriosa Olivetti Lettera 82 verde.

Desde o último quarto do século XX, a missiva foi sendo lentamente tragada por outras modalidades síncronas, que têm a reputação de facilitar a comunicação entre as pessoas.

Naufragaram também as práticas românticas a ela vinculadas: colocar perfume no papel, colar cuidadosamente o envelope, comprar o selo lançado recentemente...

A diminuição progressiva do custo das maravilhas eletrônicas permitiu o acesso de grande parte da população mundial a tais novidades, o que é algo importante.

O teste de datilografia, outrora requisito obrigatório em vários concursos, foi dissipado.

Na maioria das vezes, não usamos mais os 10 dedos para digitar, pois o tamanho do teclado encolheu, mas poucos o fazem tão bem como o senhor, que era um ás nesse ofício.

O corretivo agora é automático e, por vezes, funciona como erradivo, pois altera o que ainda estávamos escrevendo...

Na pressa, muitos enviamos o disforme!

A mudança da velocidade altera a nossa percepção dos objetos, já ensinara Einstein.

O mesmo acontecimento proporciona ao Homem, paradoxalmente, sensações de expansão e retração.

Encontrar o equilíbrio é, cada vez mais, um enorme desafio.

Atônito, percebo que a maioria prefere, para diminuir o vazio, pisar no acelerador...

Estarão alimentando um insaciável buraco negro interno?

Repleto de dúvidas, tenho falado cada vez menos.

É um tipo diferente de silêncio: ainda estou me acostumando com ele, pois esse veio sem manual.

Continuo me dedicando para não fazer o que acredito ser adverso para mim e também o que possa, de algum modo, prejudicar o outro.

Também tenho me empenhado para seguir na direção do que sempre desejei.

Nesse momento, sinto que a gravidade é quase zero, porém ainda falta muito para eu flutuar!

É atordoante para mim o ataque sorrateiro do Alzheimer, que o desconecta aos poucos do mundo.

Mesmo assim, o senhor continua me propiciando muitos aprendizados, os quais lhe sou muito grato.

Beijo,

com amor

Paulo

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