quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

ESQUISITO >> Carla Dias >>



But I'm a creep, I'm a weirdo,
What the hell am I doing here?
I don't belong here.
Da canção Creep, de Radiohead


Não, meu caro... Que essa coisa de sonhar alto, verbalizando querenças e planos, como se contasse uma história que jamais será a sua, não vai dar certo, não. Vão pensar que você é maluco, que merece uma vaga no hospício ou receita sem prazo de validade para usufruir tarja preta em ascensão. Haverá até os que oferecerão longas declamações de conselhos decorados durante uma vida sob a batuta da austeridade e da intolerância. Conselhos que seguiram à risca e os levaram a lugar nenhum... Ao menos no que diz respeito à felicidade.

Seu caminho pode se tornar mais tortuoso, menino, se você escolher alternativas que não constam nos testes de múltipla escolha. Com tantas escolhas disponíveis, por que escolher aquela que não está lá? Irão rotulá-lo ignorante por isso, pessoinha sem noção, intelectualmente preguiçosa, incapaz de compreender que um mais um é dois e pronto e acabou.

Mas você compreende, não? Até o “pronto e acabou” tem suas versões. É flexível.

Definitivamente, você vai seguir feito filho do inacabado, do incabível, do inviável. Do infinitamente instável. Talvez alguns venham a desejar escutar o que você tem a dizer. Porém, isso não significa que eles estarão dispostos a gastar tempo na compreensão do que você vê, sente e imagina para a sua vida e que, na singeleza da fração do que você representa nesse universo, se estende ao seu semelhante.

Está pronto para isso?

Levar a vida alimentando a incompatibilidade com o espaço reservado ao que em seu benefício foi previamente — quando mesmo? — estabelecido? Está pronto para as palavras saírem da sua boca e atingirem aos outros como se elas fossem um pedido explícito para ser ignorado? Até que sua existência seja encarada como desperdício de espaço. Até que você represente nada. Nem incômodo... Nada.

Quando restar a você somente o número do CPF para provar existência, e você tiver gritado todas as canções de dor e fúria. E tiver se explicado tantas vezes que nem mesmo você acreditará mais na verdade que defende, ao seu auxílio virão os de alma evoluída, oferecendo coaching existencial, dengos religiosos e abrigo emocional, por uma porcentagem pequenininha do salário que você ganha trabalhando quase vinte horas por dia e nunca é suficiente.

Então, você perceberá o bom e velho DANE-SE ressoar dentro de você, ocupando aquelas salas vazias, onde anteontem viviam as esperanças e as aspirações. E os sonhos... Eles viviam tão bem ali, não é mesmo? Eles o faziam sentir como se o futuro lhe reservasse todas as oportunidades.

Admira-me que, sabendo desse risco, você siga nessa insistência em ser quem é, sem remodelagem, somente sabedoria oriunda de cada tombo grandioso e pacatas conquistas. É bonito de se ver daqui, viu? Parece cena de filme preferido na repetição, gerando aquela sensação insubmissa de que a vida é justa, ainda que de um jeito cruel. Parece solitário daí, quando quase me coloco em seu lugar.

Você é estranho, mas de um jeito...

Às vezes, até que admirável. Mas, dia desses, alguém decidirá que dará ibope retratá-lo em artigo de revista sensacionalista. Você será rotulado mais algumas vezes em categorias onde jamais imaginou se enquadrar... Nas quais você definitivamente não se enquadra. Isso vai fazer com que se sinta um estrangeiro no seu próprio país. Sua alma vai reivindicar outro paradeiro, que não o seu corpo. Vai querer sair voando por aí, inspirada por garrafas de vinho barato que, vazias, servem de vasos para flores passarem seus últimos dias de vida. Você vai chorar e espernear. Tentará explicar que não, não é bem assim... Você não é isso, não. Como poderia?

Como pode?

Assistindo daqui, temo imensamente pelo seu destino. Daqui, admiro profundamente sua insistência em ser quem é... Essa coisa de sair de casa para ver o que o dia lhe reserva, aberto ao improvável, sem qualquer preconceito a respeito do novo ou da rotina, e totalmente respeitoso a quem se mostra sábio, até mesmo ao discursar sobre o que não conhece ou lhe agrada.

De repente, sim, você está pronto para isso. E eu serei quem se surpreenderá ao vê-lo sonhar alto, verbalizar querenças e planos, como se contasse uma história que jamais será a sua, mas que ainda assim o acolhe... Esse estranho e sua esquisitice de não temer ser quem lhe cabe, apesar do que e daqueles que o invejam e, por isso mesmo, querem destruí-lo, porque tentar compreendê-lo pode levá-los à conclusão de que sim, você vale o sonho realizado, o afeto conquistado, o respeito adquirido.


Imagem © Cena do filme Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin)





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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, uma crônica assim, com esse "você", me faz sentir ainda mais um dos seus personagens. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Vai saber ;)