quarta-feira, 27 de maio de 2009

URGÊNCIAS >> Carla Dias >>

Quando vários acontecimentos atropelam meu momento, chamo o evento de “tudo ao mesmo tempo agora”, que pode até ser título de livro que ainda não li, mas para mim também é a combinação de palavras que melhor expressa a urgência para a qual nem sempre estou preparada.

Eu estou acostumada às urgências do cotidiano. Consigo me adaptar ao tempo do mundo e cumprir meus horários, e apesar de não ir com a cara do calendário, aceito minha condição de gente e marco ponto. Raramente me atraso para os compromissos, acontece até, frequentemente, de eu chegar adiantada e ficar à toa, vendo a banda passar.

Descobre-se muito sobre a vida vendo a banda passar.

Mas como dizia, as urgências cotidianas não me cutucam, porque eu as executo no piloto automático, como acho que deve ser, senão as importâncias acabam sendo direcionadas para o que nada mais é do que uma ferramenta para a sobrevivência. E simplesmente sobreviver, sem seguir adiante e abraçar a vida, sem viver a vida, para mim é o mesmo que cair num sono sem direito a sonho.

As urgências que me escaldam, me deixam avariada, caminhando na frigidez das horas que não passam, dos finais de semana de molho, dos insignificantes desvelos, são as urgências emocionais. Como naquele dia em que levantamos com a sensação de que até o fim dele apenas nos arrastaremos se não encontrarmos um riso que nos inspire a sorrir, ou dentro de nós mesmos, uma réstia de alegria que, assoprada na boca, autora dos primeiros socorros da boa vontade, ganha nosso dentro e mina esperança.

As urgências estampadas na saudade, na fragilidade da presença, nas rezas para Deus e os mundanos, e aquelas que transitam pelos desejos que nascem proibidos, mas que, secretamente, confiam às possibilidades seu destino.

Encarar as urgências cotidianas, de quem perde o ônibus e corre que corre para não perder a hora do trabalho, e tem de lidar com o chefe num monólogo-bronca, ele que jamais saberá que você se atrasou pela urgência emocional em carne viva de se trancar no banheiro e chorar cinco minutos as dores de uma vida inteira. E então se recompor, compor um motivo outro para caber no roteiro da desculpa que dará. A urgência dos que cirzem palavras para dizer quão importante é aquele ou aquele outro negócio, apesar de não acreditar nele. Dos que vendem, compram, doam...

Para os que se despedem as urgências são dolentes. E em momentos de “tudo ao mesmo tempo agora”, há também as urgências sonsas... Aquelas que sabemos tinham de correr até a linha de chegada, mas que caminham a passos de tartaruga até o seu desfecho, esticando a jornada até, crentes de que, chegando lá, vão se esbaldar em alívio.

www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com



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3 comentários:

C. S. Muhammad disse...

Carla, me identifiquei muito com seu texto, que é muito sensível.

Marisa Nascimento disse...

Carla, que a urgência de ser feliz seja sempre a maior das prioridades em sua vida!:)

Carla Dias disse...

C.S. Muhammad: fico sempre contente quando as pessoas se identificam com os meus textos. É como ter companhia durante o passeio. Obrigada, viu?

Marisa: Vamos compartilhar essa prioridade? Então, sejamos felizes!