domingo, 24 de maio de 2009

À MODA DE UM TESTAMENTO
>>Eduardo Loureiro Jr.

Lucas Landau - Flickr.com
E se esta não fosse apenas mais uma crônica de domingo? E se fosse a última? E se daqui a uma hora e meia eu perdesse completamente a memória, desaparecesse ou simplesmente morresse? O que eu deveria escrever se esse fosse meu último registro escrito, se fosse por meio deste texto que as pessoas compreenderiam minha partida inesperada e toda a minha vida?

Talvez fosse bom eu deixar um testamento. Mas eu tenho tão pouco... Os livros e os jogos -- eterna companhia e aprendizado -- para a sobrinha. Os escritos -- substitutos dos filhos que não tive -- para a família. Os computadores -- extensões do corpo e da mente -- para a mulher. As roupas e os órgãos -- incluindo os olhos castanho-esverdeados -- para doação. Mas os testamentos são muitas vezes uma tola tentativa de continuar participando quando não se pode mais participar, de compensar algo que ficou por ser feito. Ser a companhia, o aprendizado, os filhos, a extensão, o agasalho e o auxílio que não se quis ser em vida.

O que se pode deixar quando se vai partir? Uma idéia, uma mensagem? Que tenho eu pra dizer além do que qualquer sábio já disse: "amem, amem, amem... amém"?

Poderia dizer que não fui de vez, que nos reencontraremos em outra vida ou em outra dimensão. Poderia dizer que não é nada disso, que o fim é o fim, e que é melhor vocês nem se preocuparem com a minha pessoa. Poderia pedir desculpas pelo que fiz ou deixei de fazer. Poderia dizer "esqueçam a literatura, o que importa é a mensagem" ou o contrário: "esqueçam a mensagem, o que importa é a literatura". Ou então:

"Vou fazer uma mágica. Querem ver como eu consigo me fazer desaparecer?"

E assistir ao riso de incredulidade de vocês, depois ao olhar de espanto, depois à respiração de ansiedade, depois às palavras de desespero, depois aos urros de raiva, depois ao silêncio de desencanto, depois ao suspiro de aceitação.

E eu tentaria aparecer novamente com um grande sorriso no rosto, dizendo "gostaram da mágica?", mas já seria tarde demais.




Partilhar

8 comentários:

Marisa Nascimento disse...

O que se pode deixar quando se vai partir? Que tal um "até breve"? :)

Cristiane disse...

Ah, Eduardo, desaparece não...

beijos

Letti disse...

Seria mesmo tarde demais? Não sei... Muitas vezes o alívio abafa o susto.
E confesso que fiquei assustada com essa crônica...
beijo!

Ana disse...

Eduardo, você teve algum pressentimemnto?
Alô, alô, está aí?
Câmbio.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Calma, Marisa, Cristiane, Claudia e Ana. Vou sumir não. Mas pelo jeito terei que escrever uma crônica sobre esse susto que vocês tomaram. :) Vai ver que vocês nem se assustaram, né?, queriam só me dar um pouquinho mais de inspiração. :)

Carla Dias disse...

Sabe, já pensei muito sobre o que escreveria num possível testamento. Decidi pelo copy/paste... Vou usar esse seu, mas terei de substituir a cor dos olhos e a quantidade de sobrinhos. Pode?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pode, Carla, mas só está liberado pra uso daqui a uns 57 anos. Não invente de nos deixar sem suas palavras antes disso. :)

Ana disse...

Some ainda não... logo agora que eu te conheci... e descobri seu blog!
E se quiser deixar algo para alguém, deixe a si mesmo, mais um pouco de si, para nós, amigos e anônimos que atravessamos seu caminho.
Seria o melhor legado deixar boas - e reais - lembranças de sua pessoa.
Então, negue-se a estes seres um pouco menos, permita-se olhar, conversar e mostrar-se um pouco mais. Seja mais que brilhante, amoroso, inspirador... seja presente.
Seja nosso presente.