sexta-feira, 15 de maio de 2009

MA VIE EN ROSE >> Leonardo Marona

Este é seu, você que me chama de branco. Você que fala com o sol e tem milhões de protetores cósmicos, você redoma viva do meu bom-senso, este aqui é todo seu, minhas lágrimas que escorrem, e todas as lágrimas são de alegria e tristeza, sem distinção, mas este aqui é só para você, essência duradoura do meu rasgar de pele. Quero ouvir por muitos dias suas rezas sentada feito Buda com a janela aberta e o vento nas cortinas. Quero, sim, dormir de conchinha porque é quando somos todos os casais. Quero também te entregar meu discernimento raso, meu copo tão cheio de peso tão morto. Nós somos os carbornários, meu amor, as avalanches usam braços invisíveis para nos arrastar sem olhos. Mas agradeço, agradeço pela nossa comunhão de corpos, nervos e dores. Agradeço por cada pedaço arrancado na tentativa absurda de querer estudar o inqualificável. Agradeço por La Vie en Rose na versão de Grace Jones. Obrigado pelas noites dignas de Henry Miller e pelos ataques súbitos de emoção, por mergulhar com olhos ávidos no sopro convulso. Você que abre espaço com os próprios punhos. Você que tem fé nos sonhos e carrega a peso de uma filosofia ancestral. Você que me mostra cartas e jogos com moedas. Você fonte propulsora de energia rítmica. Você que me fala das mitologias chinesas e tem um riso que é puro marfim. Podemos estar sem braços, mas temos que nos dar as mãos. Não se esqueça, meu amor, nós somos os carbonários, os carregadores de verdades que ninguém quer saber. Não levaremos nada desse mundo, viemos para dar, nós somos o mercúrio diante da febre. E das manchas perpétuas da nossa existência crescerá a coisa pura, sem discrição.


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4 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, estive ausente, você não! Sua presença é sempre intensa na riqueza literária de seus textos! Sempre encantador te ler. :)

C. S. Muhammad disse...

Que linda dedicatória.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bonita carta de amor. :)

Flavia disse...

Que lindo poema! Me emocionou do começo ao fim!