Pular para o conteúdo principal

MA VIE EN ROSE >> Leonardo Marona

Este é seu, você que me chama de branco. Você que fala com o sol e tem milhões de protetores cósmicos, você redoma viva do meu bom-senso, este aqui é todo seu, minhas lágrimas que escorrem, e todas as lágrimas são de alegria e tristeza, sem distinção, mas este aqui é só para você, essência duradoura do meu rasgar de pele. Quero ouvir por muitos dias suas rezas sentada feito Buda com a janela aberta e o vento nas cortinas. Quero, sim, dormir de conchinha porque é quando somos todos os casais. Quero também te entregar meu discernimento raso, meu copo tão cheio de peso tão morto. Nós somos os carbornários, meu amor, as avalanches usam braços invisíveis para nos arrastar sem olhos. Mas agradeço, agradeço pela nossa comunhão de corpos, nervos e dores. Agradeço por cada pedaço arrancado na tentativa absurda de querer estudar o inqualificável. Agradeço por La Vie en Rose na versão de Grace Jones. Obrigado pelas noites dignas de Henry Miller e pelos ataques súbitos de emoção, por mergulhar com olhos ávidos no sopro convulso. Você que abre espaço com os próprios punhos. Você que tem fé nos sonhos e carrega a peso de uma filosofia ancestral. Você que me mostra cartas e jogos com moedas. Você fonte propulsora de energia rítmica. Você que me fala das mitologias chinesas e tem um riso que é puro marfim. Podemos estar sem braços, mas temos que nos dar as mãos. Não se esqueça, meu amor, nós somos os carbonários, os carregadores de verdades que ninguém quer saber. Não levaremos nada desse mundo, viemos para dar, nós somos o mercúrio diante da febre. E das manchas perpétuas da nossa existência crescerá a coisa pura, sem discrição.

Comentários

Leonardo, estive ausente, você não! Sua presença é sempre intensa na riqueza literária de seus textos! Sempre encantador te ler. :)
C. S. Muhammad disse…
Que linda dedicatória.
Bonita carta de amor. :)
Flavia disse…
Que lindo poema! Me emocionou do começo ao fim!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …