quarta-feira, 20 de maio de 2009

ANTES DE NÓS HOJE >> Carla Dias >>

Domingo passado, uma amiga muito querida veio me visitar, e enveredamos por lembranças desde a época em que nos conhecemos. E aí já se contabilizam vinte e três anos.

Eu e a Fátima estudamos no mesmo colégio, em Santo André (SP), o Américo Brasiliense. Caímos na mesma classe no primeiro ano e - indo contra a minha total falta de capacidade de fazer amizades, que na época dava um banho na atual -, nos demos bem logo de cara. Daí para dividirmos a fileira das carteiras, os trabalhos, o lanche na hora do intervalo, as mágoas e as alegrias, enfim, foi um pulo.

Nossa amizade inclui algumas aventuras... No bate-papo domingueiro, a Fátima relembrou do dia em que a carreguei para o show do Bon Jovi, em janeiro de 1990. Veementemente, passional como sempre é, ela frisou que era o Hollywood Rock, não o show do Bon Jovi... E era mesmo, mas para mim era o show do Bon Jovi! Também disse que eu a usei... Que a escolhi porque ela sabia chegar ao estádio, pois assistia a jogos de futebol com o pai, e eu não sabia chegar até a esquina. Verdade de novo... Mas a boa é que a amigas como nós se permitem alguns abusos desses, principalmente se eles prometem diversão e cumplicidade.

Depois do show, tomamos um ônibus até a estação de metrô Anhangabaú, mas quando chegamos lá já estava fechada. O jeito foi fazer o que centenas de outras pessoas fizeram: sentamos na escadaria do Teatro Municipal e esperamos. A Fátima deitou no meu colo e dormiu, e eu arrumei um papel e uma caneta e escrevi. Não me lembro das palavras, das nuanças do poema, mas sei que retratava aquela sensação boa que sentia no momento. Até hoje a Fátima guarda esse poema, escrito num pedaço de papel de embrulho daqueles cor-de-rosa, representando minha gratidão pela companhia.

O Hollywood Rock não foi a única aventura musical para a qual empurrei minha amiga. Teve também o dia em que ela foi comigo, de trem e metrô, para um estúdio, se não me engano, em Santana. Havia esse guitarrista, gente boníssima, que me convenceu a tocar um dia com ele. Eu estava sem banda, não era muito fã do estilo da banda dele (punk rock), mas estava com tanta vontade de tocar que lá fui eu... Carregando a Fátima junto... A Fátima me ajudando a carregar caixa, pratos e pedal. A Fátima não quis ficar no estúdio de ensaio, “muito barulhento”, ela disse. Ah! Essa é uma das vantagens de ser amiga dela... A Fátima sempre diz o que pensa.

Ela dormiu na recepção, enquanto eu me descabelava naquele ritmo desembestado. Depois fomos para casa e nunca mais toquei com uma banda de punk rock, mas carreguei caixa, pratos e pedal outras vezes no trem e no metrô.

Apenas para constar: nada contra o punk rock... É só uma questão de usar a roupa mais confortável. A minha roupa está mais para o tradicional rock’n roll, a batida sonsa do samba canção, os acessórios do funk.

A nossa conversa no domingo não se baseou somente nas aventuras. Aqui eu posso registrar somente as minhas, mas eu também embarquei nas dela. Falamos muito também sobre as pessoas que éramos na época do colégio, de como ela gostava de ir em casa e comer arroz e ovo frito, de como éramos mais ousadas nos sonhos, desconectadas de tanta sofreguidão na hora de tomar decisões, nas domingueiras no 1º de Maio. Nós gostávamos de sair para dançar aos domingos! Hoje isso é raro... No meu caso é nulo.

Eu disse que tudo isso parecia muito distante, como se tivesse sido vivido por outra pessoa, não por mim. A resposta da Fátima é o que justifica essa crônica, porque achei que ela me ajudou a me desfazer da indiferença que ando dedicando a quem me tornei. Ela disse, e tomo a liberdade de expor nas minhas palavras, que se lembrava de tudo como se fosse ontem, que fazia questão de poder revisitar aquele tempo, a pessoa que era naquela época, a leveza que havia ali, porque era ela sim, éramos nós, não somos outras, apenas mais adultas, feridas, sábias e tolas, felizes como escolhemos ser.

E me sinto orgulhosa de mim por ter sabedoria para escolher amizade tão sincera.

Há vinte e três anos eu a Fátima somos amigas, e apesar de nos vermos menos do que gostaríamos, sabemos poder contar uma com a outra. E quando nos encontramos, gosto de ouvi-la falar sobre a paixão que tem por História, de como relembra nossas aventuras, de como nos enxerga naquele e neste tempo.


www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com




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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela amizade essa! E conta mais aventuras que essas aí foram só pra dar o gostinho... :)

Letti disse...

Eu já ia reclamar, mas Edu antecipou, mais aventuras, tem?
beijo!

Marisa Nascimento disse...

Carla, que amizade bonita! Conservar amizades assim, já é uma doce aventura, o resto vem por acréscimo!:)