Pular para o conteúdo principal

ELA ERA IMENSA [Ana Gonzalez]

A bandeira era imensa. Eu não poderia dizer seu tamanho nem metragem, porém imagine que o lugar onde ela deveria chegar era um mastro de concreto de dezenas de metros de altura no meio de uma pequena praça no centro de São Paulo. Imaginei seu vôo lá no alto.

Uma fotógrafa acompanhava sua lenta subida. Descobria ângulos especiais enquanto uma dúzia de pessoas, entre as quais alguns soldados de alguma corporação, lhe fazia companhia. Havia também um carro de bombeiros e o seu pessoal. E uma ou outra pessoa em janelas dos prédios à volta, como eu, espiavam a tarefa de colocá-la nesse lugar tão alto.

Eu havia parado na passarela de pedestres que liga o canto do Vale do Anhangabaú ao terminal de ônibus da Praça das Bandeiras. Recostei o antebraço no parapeito e me debrucei um pouco para ver até onde ia o mastro por onde ela começava a subir. Vai demorar, pensei. Içá-la não vai ser fácil. Fiquei. Acomodei melhor o braço para descansar do peso da bolsa grande e cheia de papéis e outras coisas, que agora – com o peso - pareciam simples tranqueiras. Coisas de mulher.

O sol das cinco da tarde batia nos prédios da praça entre a Avenida Nove de Julho e a 23 de maio, num canto pequeno e movimentado por trânsito que naquele momento ainda corria solto. Sem a paradeira do tráfego de final de dia. Abria-se um céu naquele canto. E eu nunca tinha percebido aquela minúscula praça apertada. Quase ridícula. Sem vegetação, com um resto de grama que sobrara neste inverno atípico, quente e seco. Fiapos de grama renitente. Sobrevivente, vocação nordestina.

A bandeira subia devagar, muito devagar no mastro redondo, enorme e forte que afinava enquanto se dirigia ao azul do céu. Um mecanismo elétrico a elevava. E eu imaginava: como será ao abrir-se ao vento?

De repente, lembrei-me do hino. “Salve lindo pendão...”. “A grandeza da Pátria nos traz...” Aprendi todinho quando estava na escola. Cantávamos no pátio para comemorar o seu dia.

Ela merece. Essa que sobe devagar merecia um batalhão de crianças cantando. Foi difícil aprender. Todos desafinavam especialmente num trecho. A professora tinha muita paciência. Nós também tínhamos com ela num merecimento mútuo. E todos saudávamos o pendão nacional.

Soube sua história tempos depois. Um projeto republicano que despertara protestos dos monarquistas. Seu mentor fora Raimundo Teixeira Mendes e contara com a presença de muitos nomes. O pintor francês Debret, o belga Louis Cruls diretor do Observatório Nacional, amigo do imperador, Benjamim Constant e até Augusto Comte que participou indiretamente dela. O desenho de suas estrelas passou por uma polêmica tendo recebido críticas de ordem técnica. Estrelas acima ou abaixo da faixa? Versão invertida? Enfim, questões astronômicas pouco visíveis para nossas leigas perspectivas. Na verdade, poucos imaginam que as estrelas estejam lá por questões astronômicas e não estéticas. Tudo nela, cores, estrelas, linhas, palavras vale para construir uma imagem, símbolo de nacionalidade. Deve ter sido mais fácil na bandeira norte-americana, com a disposição das estrelas em prateleiras, como descreve um amigo meu.

Hoje, neste momento – confesso que em outros também -, eu contava com uma experiência menos nacionalista e mais estética. Invadia-me uma sensação quase sublime. O pano parecia sedoso e era de um verde, um amarelo e azul inigualavelmente bonitos. As estrelas nem eram percebidas em meio a tanta cor.
Contraste de um vivo imenso. Na verdade, nem apareciam e perdiam-se nos panos, dobras, por onde meu pensamento também se deixava ir. Iriam surgir talvez somente à noite, quando então o breu pudesse lhes dar espaço.

Ao chegar ao topo do mastro, ela pende. Vai voar, enfim? Ensaiou uns passos. Seu pano imenso revoluteou, as dobras trocaram de lugar. Volteios mágicos. Depois parou. Descansou, repousou no estático de sua majestade. Outro dia, talvez. Ainda não hoje. Com mais vento. Muito mais força de vento para fazê-la voar. Como será então o seu voar?

Comentários

Debora Bottcher disse…
Que primor de homenagem à Bandeira
Brasileira, essa 'coisa' quase esquecida de nosso cotidiano nessa
Pátria de corrupção e políticos que se 'lixam'... Valha-me...
Uma beleza de texto que relata um olhar observador sobre um momento que deve ser único, apesar de diário na praça em questão.
Muito sensível, Aninha. Obrigada por nos chamar atenção à Bandeira Nacional.
Super beijo.
Ana, eu adoro a Bandeira, as bandeiras! Um presente, a sua crônica! :)
Anônimo disse…
Ana González: Débora, detalhe do dia-a-dia e maravilha poder enxergar de novo a Bandeira... rssrs... obrigada pelo comentário!

Marisa, afinidades são assim... presentes. Essa entre nós também é presente para mim!
Ah, eu gosto tanto quando aparece por aqui uma crônica clássica como essa sua, Ana, que eleva o cotidiano ao céu, e o cotidiano tremula, tremula, tremula...
Anônimo disse…
AnaGon

Eduardo, clássica? Eita.... rsrsrs... Acho que vou receber essa classificação como um elogio Obrigada!
Mas, adoro seu comentário com esse toque tão de poesia...
Bj

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …