sábado, 16 de maio de 2009

ELA ERA IMENSA [Ana Gonzalez]

A bandeira era imensa. Eu não poderia dizer seu tamanho nem metragem, porém imagine que o lugar onde ela deveria chegar era um mastro de concreto de dezenas de metros de altura no meio de uma pequena praça no centro de São Paulo. Imaginei seu vôo lá no alto.

Uma fotógrafa acompanhava sua lenta subida. Descobria ângulos especiais enquanto uma dúzia de pessoas, entre as quais alguns soldados de alguma corporação, lhe fazia companhia. Havia também um carro de bombeiros e o seu pessoal. E uma ou outra pessoa em janelas dos prédios à volta, como eu, espiavam a tarefa de colocá-la nesse lugar tão alto.

Eu havia parado na passarela de pedestres que liga o canto do Vale do Anhangabaú ao terminal de ônibus da Praça das Bandeiras. Recostei o antebraço no parapeito e me debrucei um pouco para ver até onde ia o mastro por onde ela começava a subir. Vai demorar, pensei. Içá-la não vai ser fácil. Fiquei. Acomodei melhor o braço para descansar do peso da bolsa grande e cheia de papéis e outras coisas, que agora – com o peso - pareciam simples tranqueiras. Coisas de mulher.

O sol das cinco da tarde batia nos prédios da praça entre a Avenida Nove de Julho e a 23 de maio, num canto pequeno e movimentado por trânsito que naquele momento ainda corria solto. Sem a paradeira do tráfego de final de dia. Abria-se um céu naquele canto. E eu nunca tinha percebido aquela minúscula praça apertada. Quase ridícula. Sem vegetação, com um resto de grama que sobrara neste inverno atípico, quente e seco. Fiapos de grama renitente. Sobrevivente, vocação nordestina.

A bandeira subia devagar, muito devagar no mastro redondo, enorme e forte que afinava enquanto se dirigia ao azul do céu. Um mecanismo elétrico a elevava. E eu imaginava: como será ao abrir-se ao vento?

De repente, lembrei-me do hino. “Salve lindo pendão...”. “A grandeza da Pátria nos traz...” Aprendi todinho quando estava na escola. Cantávamos no pátio para comemorar o seu dia.

Ela merece. Essa que sobe devagar merecia um batalhão de crianças cantando. Foi difícil aprender. Todos desafinavam especialmente num trecho. A professora tinha muita paciência. Nós também tínhamos com ela num merecimento mútuo. E todos saudávamos o pendão nacional.

Soube sua história tempos depois. Um projeto republicano que despertara protestos dos monarquistas. Seu mentor fora Raimundo Teixeira Mendes e contara com a presença de muitos nomes. O pintor francês Debret, o belga Louis Cruls diretor do Observatório Nacional, amigo do imperador, Benjamim Constant e até Augusto Comte que participou indiretamente dela. O desenho de suas estrelas passou por uma polêmica tendo recebido críticas de ordem técnica. Estrelas acima ou abaixo da faixa? Versão invertida? Enfim, questões astronômicas pouco visíveis para nossas leigas perspectivas. Na verdade, poucos imaginam que as estrelas estejam lá por questões astronômicas e não estéticas. Tudo nela, cores, estrelas, linhas, palavras vale para construir uma imagem, símbolo de nacionalidade. Deve ter sido mais fácil na bandeira norte-americana, com a disposição das estrelas em prateleiras, como descreve um amigo meu.

Hoje, neste momento – confesso que em outros também -, eu contava com uma experiência menos nacionalista e mais estética. Invadia-me uma sensação quase sublime. O pano parecia sedoso e era de um verde, um amarelo e azul inigualavelmente bonitos. As estrelas nem eram percebidas em meio a tanta cor.
Contraste de um vivo imenso. Na verdade, nem apareciam e perdiam-se nos panos, dobras, por onde meu pensamento também se deixava ir. Iriam surgir talvez somente à noite, quando então o breu pudesse lhes dar espaço.

Ao chegar ao topo do mastro, ela pende. Vai voar, enfim? Ensaiou uns passos. Seu pano imenso revoluteou, as dobras trocaram de lugar. Volteios mágicos. Depois parou. Descansou, repousou no estático de sua majestade. Outro dia, talvez. Ainda não hoje. Com mais vento. Muito mais força de vento para fazê-la voar. Como será então o seu voar?



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5 comentários:

Debora Bottcher disse...

Que primor de homenagem à Bandeira
Brasileira, essa 'coisa' quase esquecida de nosso cotidiano nessa
Pátria de corrupção e políticos que se 'lixam'... Valha-me...
Uma beleza de texto que relata um olhar observador sobre um momento que deve ser único, apesar de diário na praça em questão.
Muito sensível, Aninha. Obrigada por nos chamar atenção à Bandeira Nacional.
Super beijo.

Marisa Nascimento disse...

Ana, eu adoro a Bandeira, as bandeiras! Um presente, a sua crônica! :)

Anônimo disse...

Ana González: Débora, detalhe do dia-a-dia e maravilha poder enxergar de novo a Bandeira... rssrs... obrigada pelo comentário!

Marisa, afinidades são assim... presentes. Essa entre nós também é presente para mim!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, eu gosto tanto quando aparece por aqui uma crônica clássica como essa sua, Ana, que eleva o cotidiano ao céu, e o cotidiano tremula, tremula, tremula...

Anônimo disse...

AnaGon

Eduardo, clássica? Eita.... rsrsrs... Acho que vou receber essa classificação como um elogio Obrigada!
Mas, adoro seu comentário com esse toque tão de poesia...
Bj