sexta-feira, 29 de maio de 2009

ME ENTERREM COMO RIMBAUD >> Leonardo Marona

Hoje eu li um sonho. Ontem à noite eu vi um sonho. Hoje eu vou escrever um sonho. Começar dizendo que os sonhos são tão inúteis quanto um tostão nas mãos de um bêbado. Ou uma abóbora aos pés de uma Cinderela. Ou um livro na frente de um intelectual de esquerda dos 20 aos 30 anos. Os melhores sonhos escritos duram uma eternidade, sempre além de quem os sonhou. Leiam algumas histórias fantásticas de algum velho barbudo fantástico e vocês vão entender. Ou então não vão entender. Meu último sonho eu não me lembro. O que me lembro não foi o último e só sei que estava grávido. O lado bom era o barrigão. O lado ruim, as palpitações, os chutes no céu da boca, as tripas torcidas e os jatos de merda pelos poros. Noutro sonho, que me lembro vagamente, era comido por crocodilos famintos. Começaram pelas pernas. Atenderam aos meus suplícios. As pernas, as pernas! Se forem um dia me matar, comecem sempre pelas pernas, de modo que eu não possa fugir. Sempre que puder fugir vou fugir. Não tenho os punhos para a glória. Mas quando se lê um sonho é inevitável se sentir tão ridículo quanto aquele que o escreveu. Portanto, que me matem e me enterrem como Rimbaud, ou então me deixem apodrecer em paz!

Não, não... Nada é nada perto de um tudo tão virulento. Eu sou nada a parte dos meus sonhos. Não almejo nada, só desejo a carne, o espírito me tapeia. Odeio me olhar no espelho e comprovar o tempo escorrendo pelas mãos com as minhas primaveras derretidas. Não vejo ninguém gritar mais. Quem grita!? Ou então gritam demais, como desesperados de tanta resignação. Não vejo ninguém rezar, tenho medo de igrejas, tenho medo de deus, já tropecei lá dentro e saí xingando os céus, enxugando as dores. Dei comida na boca de monstros internos eternos. Ademais não quero me decepcionar com alguma coisa que não consigo ver. Precisaria estar totalmente louco antes. Talvez daqui a pouco chegue no ponto. Talvez nunca mais alguém passe dessa cova morna de idéias velhas. E ninguém precisa fechar uma mão com a outra e olhar pra cima para ter alguma coisa. Existem contratos. E onde estão os visionários? Quem vai pôr na reta dessa vez? Nada de novo! Ah! O sono... E que faço eu aqui imitando poetas? Não serve. Nada. Não deveria botar as mãos nessa tesoura. Mas estou cortado por dentro, existe um bicho ácido na minha garganta, descendo, festejando, mostrando os dentes pro centro da coisa toda. O bicho diz: Eu vou lá, eu vou lá! Sinto a corrosão leve e persistente. Sinto ela vindo, me fazendo duvidar da tristeza, me dando mesas de bar cheias de nada além de palavras de auto-aprovação. Provar idéias. Não quero ninguém me olhando. Quero o zero, o simples, uma rede bem longe, embalada pelo vento. Uma mosca dormindo no meu dedão do pé. Quero o belo que eu puder cheirar. Quero as horas de desatino. Quero um riso que não se segurou. Quero um peido longo sozinho. Olhar e não falar. Escrever e riscar depois. Jogar fora. Cuspir coisas com carinho. Quero uma mecha de cabelo, uma virada de pescoço em câmera lenta, um lençol branco, uma caneca de barro fumacenta sobre uma toalha listrada às cinco da manhã. Quero dizer que te amo e o quanto te odiei. Quero gritar ao mundo que não sou nada, que não presto, que meu valor é nulo, que meus pensamentos lutam comigo desde que me ponho a lavar a cara diante do espelho até a hora em que rezo para sumir e vejo a morte sonambular. O que adoro? As coisas rápidas, que são eternas. Pensamentos ligeiros agarrados pelas pontas dos dedos. Ferrões na testa. Abraços pelos ombros. Canções sicilianas. Um olhar, apenas um olhar sincero, firme, certeiro. Levantar as bainhas das calças e chutar a água do mar sem camisa. Que se dane, me chamem do que quiserem! Quero exatamente isso. Quero que me chamem logo. Que me chamem pra mesa. “Ô, guri! Tá na mesa!”. E vejo a fumaça dançar. Cheiro a tentação cítrica, sinto a salvação pequena e tímida se aproximando. Então me aproximo. Na mesa: uma terra morta e um código de barra. Uma boca aberta vazando larvas que virarão insetos que comerão nossos braços que se tornarão outros insetos cabeludos gigantescos que se comunicarão através de grandes olhos e longas antenas até o fim dos tempos. E nada dirão a não ser “que seja...”. Uma pinóia!

Não posso continuar assim. O que acontece quando se acabam as palavras? Vou dizer o que acontece. Você é obrigado a inventar outras novas ou terá que engolir o próprio vômito e chorar, arrancar os cabelos, meter o dedo no próprio olho, pedir perdão aos céus, ficar louco. Quero distância, mas quero que me amem. Quero pedir desculpas, mas quero que se fodam. Quero me matar, mas adoro o sol com vento frio. E são tantas pessoas que estão passando aqui por dentro! Todos me pisoteiam, me cospem na cara, mas eu sinto apenas a massagem e o néctar. Perdão. Por todas as vezes que te olhei prostrado diante da janela, a mão na testa, o tronco torcido, chupado pra dentro, o pavor impenetrável que me calava. E me calei. Nunca disse nada. Engoli, engoli, engoli. Estou explodindo. Mas não posso mastigar a vontade dos outros. Quero a infância. Quero os jogos de sabão, o esconderijo dentro das almofadas, a maçã da tarde, os refúgios das árvores, a mão ajeitando a franja sobre os olhos, o secundo beijo, a terceira foda, o oitavo amigo. Chega de provações e aprovações! De que servem? Quantas chances nós temos para sermos felizes? Quantos tiros pra mandar pra cima? O que acontece quando falar em felicidade se torna algo ridículo, infantil, pejorativamente romântico? Felicidade, amor, carinho, tête-à-tête, compaixão, salvação, ombro-amigo. Soa como lixo amassado. Como um choro calado por um cano de espingarda na boca. Temos que cavucar lá dentro se quisermos encontrar a saída. Mergulhar profundidades imensas, sentir a lava quente borbulhar perto da bunda, buscar pedaços de ouro torcidos no intestino, jogar longe o bumerangue. Ou então, a resignação. Deus está com sono. Está cansado. Precisa de um dono. Deus precisa de um substituto mais prático. Deus...

E me aproximo da fumaça que exala de cima da mesa e as pessoas riem e enchem taças de vinho e têm as bochechas rosadas e os olhos pequenos e brilhantes e estalam os dedos e explodem garrafas no chão – gargalhadas! – e se apóiam uns nos outros. Quando um cai e espreme o cenho o outro levanta, estica os pêlos dos olhos e faz biquinho. Os suspensórios estão soltos atrás das cinturas, camisetas brancas sem mangas manchadas de vinho e paz. As cadeiras rangem no chão de granito. Músicas, punhos, veias, palmas de mãos, suor, sonoras entoadas, dança russa, tombos, beijos guardados na bolsa. Cassavetes à siciliana. Rapidamente consigo enxergar a saída. É como a caverna do dragão. A fumaça cheira acre, as pessoas são alegres, claras, me amam e não querem nada. O mundo dura dois segundos diante dos meus olhos. E de novo as palpitações. Tiro a camisa. O umbigo para explodir. Um alienígena para nascer. Na fumaça da mesa consigo ver o pai. A mãe sou eu. O pai é a fumaça – cheira a velório; boca murcha, olhos fechados por dedos de unhas sujas, velhotas em volta, rindo, esperando o próximo natimorto. O nascimento está tão próximo da morte, o pai da mãe, que um cheira a bunda do outro e dá tudo na mesma no fim, nascer ou morrer. Felicidade ou tristeza. E… Hum... E... Hum... E... Hum... E vapt-vupt-vazou. Sangue, cheiro de ferrugem, desmaios, charutos, ós-meus-deuses!, um troço sem pés, sem mãos, sem cérebro, só olhos e desespero. A civilização sai da minha barriga e eu sou a culpa da humanidade em mim.


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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, ler você é uma lição contínua de Literatura.:)