DESCULPE, EXCELÊNCIA! >> Albir José Inácio da Silva

 

Prezado Senhor Ministro,

 

Agradeço a generosidade de sua gestão irrepreensível na economia e peço desculpas por mim e por meus ingratos companheiros.

 

Sei que o senhor é obrigado a lidar com tipinhos ordinários que, animados por estranhas ideologias, almejam a quase imortalidade de viver mais de cem anos. Falta-lhes a humildade de dar lugar aos próximos e usufruir apenas aquilo que lhes cabe.

 

São meninos estragados pela falta de firmeza com que foram tratados pelas administrações anteriores. Ficam por aí a repetir chavões comunistas de igualdade e fraternidade.

 

São parasitas, querem tudo de graça, vendem-se por um prato de comida, por um remédio pro filho, falta-lhes orgulho e dignidade.

 

Interpretam de maneira torta e irresponsável o “crescei e multiplicai-vos” para atender muito mais a sua luxúria que ao mandamento bíblico.

 

Esquecem que eles próprios são frutos da ineficiência no controle da natalidade.  Assim não há sistema de saúde que suporte e não há previdência que dê conta por mais competente que seja - e sabemos que é - a sua gestão.

 

Esquecem-se de que tudo isso é fruto da generosidade de homens como o senhor, que tiraram de seu lucro e de seu patrimônio para lhes dar essa boa vida de hoje. Como estariam no início do século XX, sem leis trabalhistas, salário-mínimo, ou pior, na escravidão?

 

Não sei como Vossa Excelência suporta o assédio de ingratos que querem sempre mais. Empregadas domésticas não querem mais se arrastar ao nordeste para visitar os pais, agora querem levar os filhos à Disneylândia.

  

E querem carro, casa própria, hospital e lazer! Querem tudo que não lhes pertence! Rejeitam remédios abençoados, precoces e de graça e ficam pedindo vacinas perigosas que trazem chips da besta e vírus do comunismo.

 

Mas eu sou diferente, Ministro, sou todo gratidão!

 

Reconheço que estou passando um pouco do prazo, mas garanto-lhe que não é por minha culpa. Continuo comendo mal, trabalhando muito e me cuidando pouco, deve ser culpa da nossa raça. Brasileiro pula no esgoto e a única coisa que pega é anticorpo. Mas, mesmo vivendo mais do que devo, tenho a humildade de não ficar pedindo coisas.

 

Confesso que num momento de desvario cheguei a sonhar com meu filho na universidade. Veja o que fazem com nossas cabeças esses comunismos que andam por aí! Mas passou. Hoje me coloco no meu devido lugar. O menino deve ser porteiro como eu. Quem sai aos seus não degenera. Peço desculpas pela ousadia.

 

Eu compreendo o seu desabafo, Ministro. Não queria dizer aquilo, embora fosse verdade. É que fica aperreado com tanto trabalho e tanta gente pedindo comida, escola e remédio. De onde vai tirar dinheiro pra tudo?

 

Os patrões não aguentam mais impostos, como disse o presidente, “é difícil ser empresário neste país”. Fácil é ser empregado, ou desempregado com o polpudo auxílio emergencial. E não faltaram avisos, “mais direitos significam menos empregos!”

 

Desculpe, Senhor Ministro, a nossa ganância e preocupação com coisas terrenas como casa, comida e escola para os filhos.

 

Desculpe essa choramingação e covardia diante de uma gripezinha que nos tranca em casa com medo de morrer, um bando de maricas preguiçosos que aproveitam a pandemia para não trabalhar e viver às custas do erário.

 

Nunca me esqueço do senhor nas minhas orações. Peço que Vossa Excelência mantenha a paciência conosco e continue dedicando o melhor de sua técnica, arte e ciência para abençoar nossas vidas.

 

Obrigado, Senhor!

 

Comentários

Sandra Modesto disse…
Ótima crônica. Adorei a sátira.
Zoraya Cesar disse…
Dom Albir sério mesmo, tão sério qto essa sátira q de ingênua nada tem, manda essa carta pro excrescentíssimo ministro da economia furada, da fazenda rota, esse salafrário miserável a tem mais é nde queimar no fogo do inferno
Nadia Coldebella disse…
Eu achei de um abençoado sarcasmo!
Recebi um vídeo em que um ser dizia "Não à vacina! Nós temos cloroquina!". Eu fico me perguntando em todo o tempo o que aconteceu, onde o mundo errou a curva, o que aconteceu para as coisas chegarem neste disparate sem tamanho. Eu não entendo.
No começo eu ri do seu texto, mas agora, to quase desatando a chorar. Nem sei o que dizer desse buraco que entramos, dessa falta de lógica e visão, dessa distorção de valores... vamos de sarcasmo!!!
branco disse…
Mestre Albir. Felizão aqui, existe vida inteligente nos meus opostos e isso só pode ser motivo de comemoração.
Albir disse…
Obrigado, Sandra, Zoraya, Nádia e Branco!
Paulo Barguil disse…
Albir, cada vez mais afiado! Ótimo texto.

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