UM TALVEZ >> Carla Dias


Nascemos aprisionados por senões que não semeamos. Herdamos as dúvidas dos que vieram antes de nós, suas mazelas e urgências. Nascemos repetindo o que nos serve, mas às vezes avistamos o adiante, banhando-nos de surpresas que éramos incapazes de imaginar possíveis.

Éramos tantos na infância da nossa sabedoria, de quando revirávamos jardins em busca dos que se escondiam. E gargalhávamos indecorosamente como se o ato em si purgasse nosso futuro. Queríamos alcançá-los com a graça da pureza dos crédulos e esperançosos. Desejávamos eternizar o som da felicidade que ainda não tínhamos consciência de ser finita e com visitas intercaladas com consideráveis pausas.

Não sabíamos daquilo que arrefecia durante o caminho, de quantas vezes morreríamos para renascer no capricho de quem não está pronto para sucumbir. E aprendemos tanto ao sermos obrigados a encarar o inimaginável: privação de importância, violência discreta, assédio continuado em pequenas e letais doses. Morrer todos os dias e renascer na certeza de que ainda estamos vivos, ainda que só nos reste algumas oportunidades de recuperar o fôlego para lidar com o próximo esmorecimento.

Por que o mundo nos parece menor na sua amplidão, como se pudéssemos alcançar sua cabeça, cheirar seus cabelos e sermos laçados pelas suas promessas? E que, ao conhecê-las, uma a uma,  nos tornemos capazes de identificá-las e conquistemos o direito de abandonar as que são correntes, desvios, vazios.

Na virada de cartas, leram que não duraríamos nesse mundo que não merecemos. Não nos enchemos de coragem diante do dito, nos entregamos em resignação. Nascemos corrompidos pela teimosia de usar medo para compreender obstáculos e intimidação para nos aproximar da coragem de reconhecer que também pertencemos. 

Insistimos em sobreviver para que a vida nos encontre, que o mundo nos reconheça. Há dias em que é mais difícil lidar com os rompantes da miséria e os toques de leviandade. Em outros, caminhamos pelas estradas sinuosas da nossa existência, ávidos por chegar ao outro lado de todos e, finalmente, conhecer cada um de nós.    

Nossas vidas são regidas feito orquestra rejeitada por maestro. Cada um de nós se agarra aos próprios boleros e dissonantes buscas, que acabam desaguando no mesmo dilatar de necessidades. Áugures leem nossos destinos deserdados, traçando caminhos que nos levam a lugar nenhum.

Então, por que nossos ritmos irrompem na negação, exigindo espaço onde eu não deveríamos caber? Já que tudo é desordem nesse corpo que é a nossa existência, essa mistura de formas e faltas e salas escuras, vazios ímpares dançando aos pares, a simetria desarranjada pelas mãos do futuro que não é para nós, mas nos pertence.

Durante frivolidades, a interferência do talvez se aproxima do reverberar de um milagre. Nascem canções abdicadas de censura, cantadas em campos, cômodos, palcos e em cabeças de quem não sabe entregar a si ao mundo. 

Às vezes, basta um talvez.


Foto © Ingrid Moghrabi - Obra "Paisagem", de Regina Silveira, feita sob encomenda para a Bienal de São Paulo.

carladias.com



Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Nossas vidas são regidas feito orquestra rejeitada por maestro." Esse parágrafo TODO é avassalador. Ainda bem q nao caí na esparrela de te ler num domingo à tarde...
Albir disse…
O "talvez" talvez seja o único sopro de liberdade para os que nascemos agarrados às grades da certeza.
E suas letras cada vez mais frequentemente passeiam pela filosofia, né?
branco disse…
Como sempre... irretocavel
Paulo Barguil disse…
Sem talvez. Este texto é MARAVILHOSO, Carla!

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