domingo, 18 de outubro de 2009

CADÊ A PROSA ENCANTADORA?
>> Eduardo Loureiro Jr.

Noelia Quirós - Flickr.com

Tenho uma amiga me cobrando a prosa encantadora. E me ocorreu que a gente, muitas vezes, não se relaciona com as pessoas realmente, mas com uma imagem delas gravada em algum momento da relação.

Nós estamos continuamente em mutação, mas, mesmo quando percebemos isso em nós mesmos, é difícil reconhecer no outro, e continuamos a nos relacionar com uma pessoa que já não está mais lá exatamente. Como a mudança é geralmente lenta, esse desvio no relacionamento é imperceptível durante um bom tempo. A cobrança vem quando o novo outro, já bem modificado, entra em desacordo com o outro que nós gravamos, então começamos a cobrar que ele corresponda à imagem inicial.

A mudança, por vezes, nem é definitiva, é cíclica. Feito as estações do ano. Quantas vezes queremos sol quando o tempo é de chuva, frio quando é época de calor!

O problema, que nunca está realmente no outro, deve estar na nossa relação conosco. Possivelmente gravamos de nós mesmos uma imagem que fica desatualizada, por assim dizer. Então não é apenas a prosa que não é mais encantadora, mas é a própria pessoa que lê que não é mais tão encantável. Aí ficamos feito pingo d'água reclamando sol, gota de suor desejando cobertor.

Mas mesmo sendo isso verdade — que minha amiga está menos encantável —, devo assumir minha parte: minha prosa está mesmo desencatada. Que posso fazer? Minha prosa encantadora vem de eu mesmo estar encantado, e eu não estou. Coisa que estou é outra coisa que ainda não dei nome: feito bebê crescendo na barriga. Vou esperar nascer — e ver a cara — pra só depois batizar.

Enquanto isso, sou isso. Que outra coisa posso ser? Sou como um livro fechado. O livro aberto tem um fio que a gente acompanha, um fluxo, um enredo. A gente vai lendo e seguindo. Um livro fechado tem tudo junto, sem tempo. O que, pela leitura, é passado, presente e futuro, pela não-leitura não é tempo, é espaço: não é mais história, é geografia. É quando a gente deixa de ser encanto, em ritmo, em música, e vira em mapa. Mulheres, em geral, não gostam de mapas. Homens, normalmente, lidam bem com eles. Mulheres são do tempo, homens são do espaço.

Bom é quando espaço e tempo, homem e mulher, mapa e encanto se encontram. É paixão, é amor, é sexo, é casamento, é união. Mas não está sendo. Minha presente condição é não estar. Sem desespero, sem alarme, sem cobrança. Não estou.

Minha prosa agora é cartográfica: mapeia sentidos. O que sinto? O que penso? Onde há aglomerados? Onde há desertos? Quais as elevações? Quais as depressões? De onde para onde flui a água das emoções? Que rotas precisam ser sinalizadas? Que estradas precisam ser criadas?

Quando o mapa estiver pronto, eu me ponho novamente em jogo, em movimento. Até lá, estou sem canto: sobrevoo, lá do alto, os muitos cantos da minha alma lá embaixo.



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11 comentários:

Ana Lucia disse...

Que desencantamento mais poético!

Luiz Carlos Amorim disse...

Parabéns pela crônica. Tinha a dizer e disse tudo. É uma daquelas que a gente fica com vontade de ter escrito.
Abraço do Amorim

Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

Anônimo disse...

Até "desencantado" vc consegue tocar em almas.
bjo
klaudya

Anônimo disse...

Olha, Eduardo, sabia que eu acho que a tristeza – ou, sei lá, a ausência de encantamento – pode dar belíssimos textos? O seu, aliás, é prova disso.

Sobre isso de se relacionar com quem não está mais lá, acho que foi o Oswald de Andrade quem falou em procissão desencontrada ou algo assim. Quando um está apaixonado pelo outro (ou pela imagem, como você disse), o outro não gosta mais, ou gosta menos do que já gostou. É amargo, mas tem lá sua verdade.

Felipe Peixoto Braga Netto

Carla Dias disse...

O que seria dos momentos dos encantadores não fosse aqueles outros, os dos mapas? E o que seria da prosa desses seres?
O que acho mais belo no ser humano é a sua (nossa) capacidade de mudar com enredo, direito ao desvelo, até aos efeitos da homeopatia do sentimento. Pensamos estar em pausa, engolindo hiato, mas na verdade, estamos em movimento silencioso.

r a c h e l disse...

Ah Eduardo... e o que é esse nada entre coisas senão o respiro tão necessário antes do próximo abismo, não?
Eu também ando nessa entrecoisa, e doida por um novo caminho. É engraçado que com o tempo a gente não escolhe mais a esmo, não faz uni-duni-tê-salamê-minguê. Como dizia Lenine, é preciso um pouco mais de calma; talvez. E escrever lindamente assim me parece um bom jeito de cultiva-la. :)

Beijocas da sumida,

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, essa é uma daquelas raras ocasiões em que o clichê se aplica corretamente: são seus olhos. :)

Grato, Luiz Carlos. E pode assinar embaixo. :)

Que bom que você se permitiu tocar, Klaudya. :)

Grato, Felipe. Seria o desencontro uma forma particular de encontro? :)

Carla, você sempre dizendo melhor aquilo que eu apenas quis dizer. :)

Sumida Rachel beijoqueira, entrecoisa na companhia de você e de Lenine fica até mais fácil de levar. :)

Anônimo disse...

"...E não há melhor resposta que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;..."

Edu, querido amigo, respeito seu momento e, também por ele, insisto na prosa encantada, seu melhor talento na escrita. Bem sabe o que digo! Não é por estar desencantado que não pode encantar. É o que mais faz!!!

Desejo que do parto de seu momento nasça uma bela criança, assim, tipo o "Astrolábio". :)

Beijo. Saudade!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ô mulher insistente essa Maria! :) Bela lembrança a do Astrolábio. Mas sem castração, por favor. :)

Anônimo disse...

Eduardo, todas as vezes que perdemos a prosa encantadora temos a chance de olhar para nós mesmos e descobrir nossos encantos. Parabéns pela crônica!

Cláudia

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Cláudia. Agora... ou meus encantos estão muito bem encobertos ou então estou precisando de óculos. :)