Pular para o conteúdo principal

SOLICITO DESCONSIDERAR ESTE AVISO >> Carla Dias >>

O suor escorrendo nas suas faces rubras. Diria o poeta que acabara de fazer amor sem mordaças. Já o empregador o consideraria dos mais competentes funcionários. Cada um olhando de um lado, como se o homem estivesse partido ao meio.

E se apenas cavasse valas para as decisões tardias, num vaivém de enxada quase tocando o céu, antes de ser enfiada na terra?

Disseram que ele é o único que sabe de intrigante segredo. Seja o que for, deve doer o diabo, porque quem, em sã consciência, ou em consciência entortada, gostaria de ser guardião solitário de uma importância que jamais deve ser revelada?

E tem o homem de ficar na mais absoluta mudez, o voto de silêncio enfiado goela abaixo, porque se abrir a boca, se verbalizar que seja o desejo pelo doce que é seu preferido, pode deixar escapar o segredo como escorregam das nossas mãos o que não nos cabe resolver.

A moça vomita verdades às donas de casa, modelos, meninas da roça, ladrinhas de lojas de bijoux, princesas à espera de príncipes, professoras do Ensino Médio, sem se ater à benfeitoria dos bons modos. Há nela a excitação dos jogadores viciados. Seu vício, perdido nas cartas que embaralha, é ler futuro de quem nunca quis saber sobre ele. É uma alcoviteira esotérica, que melindra os descrentes, aborrece as carolas, ensandece os homens que encontram na sua habilidade fetiches que os tiram da rotina do pálido amor por suas tão corretas esposas.

O menino constrói um castelo e lagos cheios de vitórias-régias numa folha de papel, o lápis deslizando sobre o verso de uma página de um livro de matemática, logo abaixo da última lição do capítulo sobre fórmulas de adição e subtração. Ainda não sabe muito sobre os números e até se atrapalha com a tabuada, mas sabe muito bem somar e subtrair as horas que tem de esperar a mãe chegar do trabalho e levá-lo para o barraco, tirá-lo da rua, da presença de desconhecidos que tropeçam nele como se o menino fosse apenas um obstáculo em seu caminho.

Recebi essa carta mencionando que devo comparecer no banco para atualizar meu cadastro e tem de ser pra ontem. O tom fora de tom, como as correntes que impregnam nossas caixas de correio virtual - pregando que se não passarmos adiante vamos sofrer sérios abusos do destino, correndo até o risco de morrermos secos de tanta infelicidade - me fez pensar nessas pessoas tão deslocadas, e até com mais atenção em mim, já que me enquadro no deslocamento e em mais de um sentido. Já é tão complicado viver, apesar de todas as levezas, de todas as alegrias, de tantas conquistas. É difícil nos mantermos no rumo que nos leva ao melhor de nós mesmos, sem que cartas nos cheguem como, primeiramente, uma certeza de que erramos. Depois, como seres domáveis, que suspiram alívio quando lêem: “Caso já o tenha feito, solicito desconsiderar este aviso.” E na minha tolice exacerbada eu questiono o fato de você não poder responder imediatamente: desconsiderado está.

Sei que num outro momento isso não me aborreceria dessa forma, que eu encararia como apenas mais uma engrenagem do cenário comercial atual. Mas deu de eu estar pensando naquele homem... Naquela moça... Naquele menino. Há dias em que não conseguimos ser um dos dentes da tal engrenagem. Que estamos para as cartas de amor, de redenção. Para as descobertas e previsões. Para os castelos dos sonhos em versos, ainda que ele não saia do papel.

E caso você já tenha se desentendido com meu lamento desengonçado, solicito que desconsidere este aviso: às vezes o que dá na gente é vontade de sumir do mapa e morar dependurada em estrelas ou de cara com o mar.



www.carladias.com
www.osestranhos.com
www.talhe.blogspot.com
www.livrosfilmesediscos.blogspot.com

Comentários

albir disse…
Enquanto a Carla correntista desconsidera ou atualiza cadastros, a Carla lírica viaja no mar de estrelas. E nós vamos juntos, desconsiderando nossos próprios cadastros e viajando com ela.
Sei o que é isso, Carla. :)
Carla Dias disse…
É, Albir... Bom pensar nesse desdobramento que nos permite analisar a vida com a razão e o coração.

Eduardo... Tenho certeza de que você sabe.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …