sexta-feira, 16 de outubro de 2009

FILOSOFIA DE QUINTA >> Leonardo Marona

Só seria capaz de ter respeito por mim mesmo no momento em que me odiasse. Mas gosto de mim em silêncio, como aquele pai que, no último dia do ano, revela “eu te amo, meu filho”. Engraçado passar esse tempo todo sem escrever e de repente, tentar a possibilidade do esquecimento, da ferrugem, da incapacidade de sentir a dor que move. Movo? Sim, há mudanças farejando a carne, há movimento, mas ele existe primordialmente pelo medo cultivado, pelo medo que é a única sensação que tenho de estar no mundo. Quando fico sem escrever muito tempo, arranjo mil desculpas: há um maníaco me perseguindo com ameaças de me cortar fora as mãos. Há uma separação de amor lamentosa, e qual separação lamentosa não é de amor? Há uma casa na colina e a febre da cabana que pode tomar meu corpo. Mas é tudo subterfúgio. Quero esticar a corda para reconhecer o material de que é feita. Se estourar, direi a mim mesmo: era uma corda vagabunda, preciso arranjar outra. Mas talvez o que impele seja realmente o pequeno valor da corda arrebentada: meu verdadeiro amor, o amor do que se partiu porque era frágil, inepto. Porque só reconheço a mim mesmo na fraqueza; forte me torno a imagem de toda ameaça sofrida.

Estou solto às ameaças, isso é a minha corda e o ponto da ruptura. Só sou capaz de reconhecer o que é passível de se romper. As duras revoluções só me interessam como quadros de sangue, como dignidade emprestada. Muito tempo sem e percebo como permanecem curtos os períodos de lógica. Sem escrever me deixo levar pelos mais improdutivos caminhos. Uma pedra no chão, um prato branco na mesa, um louva-deus, qualquer coisa vira um “seria isso motivo para”. Mas é na insistência da indisposição que começo a medir o peso do que sinto. Sentir demais o peso, eis quando me torno escritor. Saber que minhas mãos podem ser arrancadas e talvez eu jamais escreva outra vez uma linha, talvez seja isso que importe: precisar escrever sabendo que não é necessário.

Não é necessário e, no momento, arrumo minhas malas, um lugar muito distante fechará suas portas desconhecidas na minha cara. Gastarei minhas solas em concreto vulgar, e do atrito com a borracha farei a carga que me leva arrastado ao que não posso reconhecer, porque reconhecer seria matar. Só duro o tempo da escravidão mental, da vulgaridade das superfícies, o resto é um querer estar distante. Sou atento a tudo que sou incapaz de compreender e, quanto ao que compreendo perfeitamente, gosto de citar como o que nos faz perder tempo. As curvas, ninguém fala delas, estamos a quilômetros de distância das metas provisórias. Sobrará do outro lado da distância a flor magra que minha mão leprosa não soube erguer? Mudam as caretas, mas o que estamos escondendo permanece à altura dos olhos. Sinto vontade de escrever um absurdo lógico, algo que justifique a mentira que teimo em afastar de mim. Escrevo porque assim o tempo passa mais rápido, e pelo menos há a sensação aliviante de que ele não foi perdido tolamente, ou que, pelo menos, a tolice é uma tolice reconhecida, limitada por minutos no relógio.

Passar o tempo nunca foi meu forte. Sinto coceiras nas extremidades e acabo salivando sobremaneira. Ando. Mas só suporto andar muito, o dia todo se for o caso, em lugares mínimos. Olho bastante também, e tendo a pensar que olho para muitas coisas ao mesmo tempo, porque minha vaidade me engana com a ideia de que sou uma antena compulsória. Mas não é nada disso. Esse é o cúmulo das palavras. Elas servem para indicar algo, mas nunca poderíamos fazer nada de proveitoso com uma indicação que não surgisse do que não vemos em nós mesmos, com urgência, sem palavras. Concluindo, as palavras são a contradição do tempo e do desejo. E quem enxerga muito bem lembrará de muito pouco. Contradições de um deus minúsculo. Isso porque elas, as palavras, representam nossos desejos cristalizando-os, e ao cristalizá-los podemos vê-los, algo que era antes impossível, pois os desejos não são materiais. Então, cristalizados pelas palavras, os desejos se tornam a mala com peso que podemos jogar pela janela do trem. Maldição do escritor: só se mata o que se reconhece. O escritor, portanto, é este: seco a ponto de inventar a felicidade; mau a ponto de matá-la, com o argumento de que era uma felicidade incompleta. E conhecendo os buracos de sua própria criação, ele pode se vingar de deus.


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela reflexão sobre o ofício da escrita, Léo.

Anônimo disse...

UM PEÃO JÁ CAIU, AGORA É A VEZ DO CAVALO. KKKKKKKKK

Moniquinha disse...

Impressionante Leo.. comoventemente esclarecedora!!! Sua poesia não reluta em momento algum.. Fantástico! Meus parabéns mais uma vez!!!